Intervalo inferior a sete dias entre doses de benzilpenicilina benzatina no tratamento da sífilis em pessoa não gestante: uma revisão narrativa sobre validade terapêutica
Autores
Resumo
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pelo Treponema pallidum, cujo tratamento de escolha permanece sendo a benzilpenicilina benzatina, conforme o estágio clínico da doença. Nos casos de sífilis tardia, latente tardia ou de duração ignorada em pessoas não gestantes, recomenda-se benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, por via intramuscular, uma vez por semana, durante três semanas. Na prática clínica, entretanto, podem ocorrer variações no intervalo entre as doses, incluindo atraso ou antecipação da aplicação. Este artigo tem como objetivo analisar se a administração de uma dose com intervalo inferior a sete dias, especialmente no sexto dia, invalida o tratamento da sífilis em pessoa não gestante. Trata-se de uma revisão narrativa baseada em protocolos nacionais e internacionais. Observou-se que os documentos recomendam intervalo semanal entre as doses, mas o critério explícito de reinício, em pessoas não gestantes, está relacionado ao atraso superior a 14 dias. Não foi identificado critério claro que invalide automaticamente uma dose administrada com seis dias de intervalo. Conclui-se que o intervalo de seis dias não é ideal, mas não configura, isoladamente, causa obrigatória de invalidação do tratamento, devendo haver registro adequado e seguimento sorológico.
Palavras-ChaveSífilis. Benzilpenicilina benzatina. Intervalo entre doses. Tratamento. Pessoa não gestante.
Abstract
Syphilis is a sexually transmitted infection caused by Treponema pallidum, and benzathine penicillin G remains the treatment of choice according to the clinical stage of the disease. In late latent syphilis, latent syphilis of unknown duration, or tertiary syphilis without neurosyphilis in non-pregnant individuals, benzathine penicillin G 2.4 million units intramuscularly once weekly for three weeks is recommended. However, in clinical practice, variations in the interval between doses may occur, including delayed or early administration. This article aims to analyze whether a dose administered at an interval shorter than seven days, especially on the sixth day, invalidates syphilis treatment in a non-pregnant person. This is a narrative review based on national and international guidelines. The reviewed documents recommend weekly administration, but in non-pregnant individuals the explicit criterion for restarting therapy is related to intervals exceeding 14 days. No clear recommendation was identified stating that a six-day interval automatically invalidates treatment. It is concluded that a six-day interval is not ideal, but it should not be considered, by itself, a mandatory reason to invalidate treatment, provided that adequate documentation and serological follow-up are ensured.
KeywordsSyphilis. Benzathine penicillin G. Dose interval. Treatment. Non-pregnant person.
Introdução
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum, podendo apresentar diferentes manifestações clínicas conforme o estágio da doença. Apesar de possuir diagnóstico acessível e tratamento eficaz, ainda representa um importante problema de saúde pública, exigindo condutas adequadas para evitar complicações, transmissão sexual, reinfecção e falhas terapêuticas. (BRASIL, 2022).
O tratamento da sífilis deve ser definido de acordo com a classificação clínica da infecção. Nos casos de sífilis recente, geralmente é indicada a aplicação de benzilpenicilina benzatina em dose única. Já nos casos de sífilis tardia, sífilis latente tardia ou sífilis de duração ignorada, o esquema recomendado em pessoas não gestantes é composto por três doses de benzilpenicilina benzatina, administradas uma vez por semana, totalizando 7,2 milhões UI. (BRASIL, 2022; CDC, 2021).
Embora o intervalo ideal entre as aplicações seja de sete dias, na rotina dos serviços de saúde podem ocorrer variações nesse intervalo, seja por esquecimento, atraso, dificuldade de acesso ao serviço ou comparecimento antecipado do paciente. A maior parte dos protocolos aborda com mais clareza o atraso entre as doses, especialmente quando o intervalo ultrapassa o limite recomendado, mas há menor objetividade quanto às situações em que a dose é administrada antes de completar sete dias. (CDC, 2021; WHO, 2016).
Diante dessa realidade, este estudo delimita-se à análise do intervalo entre doses de benzilpenicilina benzatina no tratamento da sífilis em pessoas não gestantes, com atenção especial à situação em que uma das doses é administrada antes de completar sete dias da aplicação anterior. A dúvida central que orienta esta pesquisa é: a aplicação de uma dose de benzilpenicilina benzatina com intervalo de seis dias invalida o tratamento da sífilis em pessoa não gestante?
A escolha desse tema justifica-se pela insegurança que essa situação pode gerar na prática clínica. Os protocolos apresentam orientação clara quanto ao atraso entre doses em pessoas não gestantes, especialmente quando o intervalo ultrapassa 14 dias. No entanto, a antecipação da dose, como ocorre quando o paciente recebe a aplicação no sexto dia, nem sempre é abordada de forma direta. Essa ausência de orientação objetiva pode levar a diferentes interpretações entre os profissionais de saúde, resultando em dúvidas sobre a necessidade de reiniciar ou não o esquema terapêutico. (BRASIL, 2022; CDC, 2021).
O objetivo geral deste artigo é analisar se a administração de benzilpenicilina benzatina com intervalo inferior a sete dias, especificamente no sexto dia, invalida o tratamento da sífilis em pessoa não gestante. Como objetivos específicos, busca-se compreender o esquema recomendado para o tratamento da sífilis tardia ou de duração ignorada, identificar os intervalos aceitos entre as doses, verificar quais situações tornam o tratamento inadequado e discutir se a antecipação de uma dose em um dia representa falha terapêutica ou apenas desvio do intervalo ideal.
Para alcançar esses objetivos, foi realizada uma revisão narrativa de literatura, baseada em protocolos clínicos, diretrizes terapêuticas e documentos técnicos nacionais e internacionais sobre o tratamento da sífilis. Foram utilizados como principais referenciais o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, as recomendações do Centers for Disease Control and Prevention e as diretrizes da Organização Mundial da Saúde. A análise concentrou-se na comparação entre o intervalo ideal, os limites aceitos para continuidade do esquema e os critérios que podem invalidar ou exigir reinício do tratamento.
Assim, este trabalho busca contribuir para a discussão sobre a validade do tratamento da sífilis em pessoas não gestantes quando ocorre pequena antecipação de dose, especialmente no intervalo de seis dias, diferenciando o que é considerado ideal do que, de fato, pode ser considerado tratamento inválido segundo os protocolos disponíveis.
Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, com análise de documentos técnicos, protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas relacionados ao tratamento da sífilis em adultos e adolescentes não gestantes. A revisão narrativa foi escolhida por permitir a discussão ampliada de uma dúvida prática específica, especialmente em uma situação em que os protocolos apresentam orientação direta para alguns cenários, como atraso entre doses, mas não detalham de forma objetiva o manejo de doses antecipadas.
Este estudo não se caracteriza como relato de caso, pois não utiliza prontuário, exames individuais, idade, município, unidade de saúde, iniciais, datas reais ou qualquer informação que permita identificação de paciente. A situação apresentada tem função apenas didática e norteadora da pergunta de pesquisa, sendo utilizada para delimitar a discussão sobre intervalo entre doses.
Foram consultados documentos oficiais do Ministério da Saúde do Brasil, incluindo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis, além das recomendações do Centers for Disease Control and Prevention e da Organização Mundial da Saúde. Também foram considerados materiais técnicos que discutem intervalos entre doses de benzilpenicilina benzatina em pessoas não gestantes. (BRASIL, 2022; CDC, 2021; WHO, 2016).
A análise foi organizada em cinco eixos: tratamento da sífilis em pessoas não gestantes; situação-problema norteadora da revisão; intervalo recomendado entre doses de benzilpenicilina benzatina; critérios que tornam o tratamento inadequado; e interpretação da situação específica de intervalo de seis dias entre a segunda e a terceira dose. Por não se tratar de revisão sistemática, não houve aplicação de critérios quantitativos de metanálise, mas buscou-se reunir os principais documentos normativos e discutir sua aplicabilidade à prática clínica.
Situação-problema norteadora da revisão
Para delimitar a discussão, este artigo utiliza uma situação-problema sem identificação de paciente e sem dados de prontuário. Considera-se uma pessoa não gestante em tratamento para sífilis com esquema de três doses de benzilpenicilina benzatina, indicado para sífilis tardia, latente tardia ou de duração ignorada.
Nessa situação, a primeira dose é administrada no dia zero. A segunda dose ocorre oito dias após a primeira. A terceira dose é realizada seis dias após a segunda. Dessa forma, o esquema fica organizado como dia zero, dia oito e dia quatorze. A dúvida investigada é se o intervalo de seis dias entre a segunda e a terceira dose invalida o tratamento ou se representa apenas uma antecipação discreta em relação ao intervalo ideal.
A escolha dessa situação-problema se justifica porque os protocolos descrevem o intervalo semanal como ideal e apresentam critério de reinício quando há atraso superior ao limite recomendado. Entretanto, não há a mesma clareza quanto à antecipação de uma dose em pessoa não gestante, especialmente quando a aplicação ocorre com seis dias de intervalo.
Sífilis adquirida e tratamento com benzilpenicilina benzatina
A sífilis adquirida pode ser classificada em recente ou tardia, de acordo com o tempo de infecção e a apresentação clínica. A sífilis recente compreende os estágios primário, secundário e latente recente. A sífilis tardia inclui a sífilis latente tardia, a sífilis de duração ignorada e algumas manifestações tardias sem acometimento neurológico. Essa classificação é essencial porque determina a quantidade de doses necessárias para tratamento adequado. (BRASIL, 2022).
Em pessoas não gestantes com sífilis recente, o esquema recomendado é benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, por via intramuscular, em dose única. Nos casos de sífilis tardia, latente tardia ou de duração ignorada, recomenda-se benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, por via intramuscular, uma vez por semana, durante três semanas, totalizando 7,2 milhões UI. (BRASIL, 2022; CDC, 2021; WHO, 2016).
A escolha da benzilpenicilina benzatina ocorre pela eficácia histórica do medicamento contra o Treponema pallidum e pela manutenção de níveis séricos prolongados após aplicação intramuscular. Porém, a preparação adequada da penicilina depende do estágio clínico. A neurossífilis, a sífilis ocular e a otossífilis exigem avaliação específica e não devem ser tratadas apenas com benzilpenicilina benzatina, pois necessitam de esquemas com penicilina cristalina ou outras condutas especializadas. (BRASIL, 2022; CDC, 2021).
Além da aplicação correta do medicamento, o acompanhamento clínico e laboratorial é indispensável. O seguimento geralmente é realizado por meio de teste não treponêmico, como VDRL ou RPR, comparando-se a titulação inicial com os resultados posteriores. A queda esperada dos títulos ajuda a avaliar resposta terapêutica, enquanto aumento de titulação, persistência de sintomas ou nova exposição sexual podem sugerir reinfecção ou falha terapêutica. (BRASIL, 2022).
Intervalo entre doses e critérios de reinício do tratamento
O esquema de três doses de benzilpenicilina benzatina é tradicionalmente descrito como semanal. Em uma sequência ideal, a primeira dose é aplicada no dia zero, a segunda no dia sete e a terceira no dia quatorze. Esse modelo facilita a organização do cuidado e contribui para a manutenção da exposição ao antimicrobiano durante o período necessário para o tratamento da sífilis tardia ou de duração ignorada.
A principal preocupação dos protocolos está relacionada ao atraso entre doses. Em pessoas não gestantes, o Ministério da Saúde orienta que, se o intervalo entre as doses ultrapassar 14 dias, o esquema deve ser reiniciado. Essa regra cria um limite objetivo para situações de atraso e permite diferenciar pequenos desvios do calendário de atrasos capazes de comprometer a validade do tratamento. (BRASIL, 2022).
O Centers for Disease Control and Prevention também reconhece que a conduta diante de uma dose atrasada em esquemas semanais pode ser incerta, mas informa que a experiência clínica indica que intervalos de 10 a 14 dias entre doses podem ser aceitáveis antes de reiniciar a sequência de aplicações. O mesmo documento ressalta que intervalos de 7 a 9 dias são preferíveis, especialmente por considerações farmacológicas. (CDC, 2021).
A Organização Mundial da Saúde recomenda benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular uma vez por semana por três semanas para sífilis tardia ou de duração ignorada em adultos e adolescentes, e observa que o intervalo entre doses consecutivas não deve exceder 14 dias. (WHO, 2016).
Assim, observa-se convergência entre documentos nacionais e internacionais quanto ao limite máximo de atraso em pessoas não gestantes: o intervalo superior a 14 dias é o ponto que exige maior preocupação e pode demandar reinício do esquema. Entretanto, essa clareza não se repete quando a questão é a antecipação de uma dose antes do sétimo dia.
Antecipação da dose: diferença entre intervalo ideal e tratamento inválido
Na prática clínica, é necessário diferenciar o que é ideal do que é inválido. O intervalo ideal representa a forma preferencial de executar o tratamento, conforme descrito nos protocolos. Já a invalidação do tratamento exige um critério objetivo, geralmente relacionado a dose insuficiente, esquema incompatível com o estágio clínico, intervalo excessivamente prolongado ou suspeita de falha terapêutica.
No tratamento da sífilis em pessoas não gestantes, os documentos analisados descrevem o esquema semanal e estabelecem limite para o atraso, mas não apresentam uma regra clara afirmando que uma dose aplicada com intervalo inferior a sete dias invalida automaticamente o tratamento. Dessa forma, a antecipação de uma dose em um dia deve ser interpretada com cautela e não deve ser equiparada diretamente a um atraso superior a 14 dias.
Na situação-problema norteadora desta discussão, observa-se que o intervalo entre a segunda e a terceira dose ficou abaixo do ideal semanal. Porém, quando se analisa o calendário completo, a terceira dose foi aplicada no décimo quarto dia após o início do tratamento, que corresponde ao dia esperado no esquema clássico contado a partir da primeira dose.
Assim, o esquema executado pode ser representado como dia zero, dia oito e dia quatorze, enquanto o esquema ideal seria dia zero, dia sete e dia quatorze. A diferença principal foi o atraso de um dia na segunda dose, seguido da aplicação da terceira no dia previsto do calendário inicial. Essa situação não produziu intervalo superior a 14 dias entre doses e não reduziu a dose total administrada.
Diante disso, o intervalo de seis dias entre a segunda e a terceira dose deve ser considerado um desvio do intervalo ideal, mas não há base protocolar suficiente para afirmar que ele invalida automaticamente o tratamento em pessoa não gestante. Essa interpretação é diferente da aplicada à gestação, na qual protocolos específicos podem adotar critérios mais rígidos de intervalo, devido ao risco de transmissão vertical e às exigências para considerar o tratamento materno adequado. (BRASIL, 2023).
Até quantos dias de adiantamento invalidam o tratamento?
A pergunta central deste artigo é se existe um limite mínimo de intervalo que invalide o tratamento quando a dose é antecipada. Com base nos documentos analisados, a resposta é que não há, para pessoas não gestantes, um número mínimo claramente estabelecido nos protocolos consultados. O que se encontra de forma explícita é a recomendação de aplicação semanal e o limite máximo relacionado ao atraso.
Isso significa que não é possível afirmar, de forma segura, que seis dias invalidam o tratamento em pessoa não gestante. Também não seria tecnicamente adequado afirmar que qualquer antecipação, independentemente da quantidade de dias, sempre seria aceitável. A ausência de um critério mínimo explícito exige análise individual, considerando a dose total, as datas, o estágio clínico e o seguimento sorológico.
Na situação-problema analisada, o intervalo de seis dias representa antecipação de apenas um dia em relação ao intervalo ideal. Como não houve atraso superior a 14 dias e houve conclusão das três doses, a interpretação mais equilibrada é considerar o tratamento como não ideal em termos operacionais, mas não automaticamente inválido. A decisão de retratamento não deve se basear apenas no número de seis dias, mas no conjunto clínico, laboratorial e epidemiológico.
Portanto, a melhor resposta técnica para o objetivo deste artigo é: em pessoa não gestante, a aplicação de uma dose de benzilpenicilina benzatina com intervalo de seis dias não é o padrão ideal, mas os protocolos analisados não apresentam critério claro que obrigue a invalidação ou reinício do esquema apenas por esse motivo.
Condições que podem invalidar ou tornar inadequado o tratamento
Embora o intervalo de seis dias, isoladamente, não tenha critério claro de invalidação em pessoa não gestante, existem situações que podem tornar o tratamento inadequado. A primeira delas é o uso de esquema incompatível com o estágio clínico. Por exemplo, tratar sífilis de duração ignorada com dose única, quando seriam indicadas três doses, representa esquema insuficiente. (BRASIL, 2022).
Outra condição é a dose total incompleta. Nos casos em que o tratamento indicado é de três doses, a pessoa deve receber o total de 7,2 milhões UI de benzilpenicilina benzatina. Se recebe apenas uma ou duas doses, sem completar o esquema, o tratamento pode ser considerado inadequado para sífilis tardia, latente tardia ou de duração ignorada. (BRASIL, 2022; WHO, 2016).
O intervalo excessivamente prolongado também pode comprometer o esquema. Em pessoas não gestantes, a orientação brasileira é reiniciar o tratamento quando o intervalo entre doses ultrapassa 14 dias. Esse é um critério objetivo de invalidação por atraso, diferentemente da dose antecipada, para a qual não se identificou regra semelhante nos documentos consultados. (BRASIL, 2022).
Também deve ser considerada inadequada a utilização de benzilpenicilina benzatina como único tratamento em situações de neurossífilis, sífilis ocular ou otossífilis, que exigem avaliação e esquemas específicos. Além disso, persistência de sinais e sintomas, elevação de títulos no VDRL ou RPR, ausência de queda esperada da titulação ou nova exposição sexual devem motivar reavaliação clínica e possibilidade de reinfecção ou falha terapêutica. (BRASIL, 2022; CDC, 2021).
A parceria sexual não tratada não invalida automaticamente o tratamento realizado, mas aumenta o risco de reinfecção. Por isso, a avaliação, testagem e tratamento das parcerias sexuais são medidas fundamentais para interromper a cadeia de transmissão e evitar novos episódios da doença. (BRASIL, 2022).
Considerações Finais
A análise dos protocolos nacionais e internacionais demonstra que o tratamento da sífilis em pessoa não gestante deve ser realizado conforme o estágio clínico da doença. Nos casos de sífilis tardia, latente tardia ou de duração ignorada, o esquema indicado é benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular, uma vez por semana, durante três semanas, totalizando 7,2 milhões UI.
O intervalo ideal entre as doses é de sete dias. Entretanto, em pessoas não gestantes, o critério objetivo de reinício do esquema está relacionado ao intervalo superior a 14 dias entre as doses. Não foi identificado critério explícito, nos documentos analisados, que determine a invalidação automática do tratamento quando uma dose é administrada com intervalo inferior a sete dias.
Na situação-problema de intervalo de seis dias entre a segunda e a terceira dose, em pessoa não gestante, conclui-se que o esquema não foi realizado de forma ideal, mas também não deve ser considerado automaticamente inválido apenas por esse intervalo. Essa conclusão é ainda mais consistente quando a terceira dose ocorre no décimo quarto dia após a primeira, respeitando o tempo total esperado do esquema semanal clássico.
Assim, a antecipação de uma dose em um dia deve ser compreendida como desvio operacional leve, e não necessariamente como falha terapêutica. A conduta mais adequada é registrar a ocorrência, orientar a pessoa em tratamento, avaliar e tratar parcerias sexuais quando indicado, e manter seguimento sorológico com VDRL ou RPR, conforme recomendação clínica.
Por fim, observa-se uma lacuna nos protocolos quanto ao limite mínimo aceitável entre doses em pessoas não gestantes. Essa ausência de orientação objetiva pode gerar insegurança entre profissionais de saúde. Por isso, recomenda-se que novos estudos e futuras atualizações de protocolos esclareçam de forma mais direta se intervalos inferiores a sete dias, especialmente de seis dias, devem ser considerados válidos, toleráveis ou inadequados no tratamento da sífilis adquirida em pessoas não gestantes.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/2022/ist/pcdt-ist-2022_isbn-1.pdf. Acesso em: 04 jun. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 14/2023-DATHI/SVSA/MS: atualização da recomendação do intervalo entre doses de benzilpenicilina benzatina no tratamento de sífilis em gestantes. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/notas-tecnicas/2023/sei_ms_-_0034352557_-_nota_tecnica_penicilina.pdf. Acesso em: 04 jun. 2026.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Latent Syphilis: STI Treatment Guidelines. Atlanta: CDC, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/latent-syphilis.htm. Acesso em: 04 jun. 2026.
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WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines for the treatment of Treponema pallidum (syphilis). Geneva: World Health Organization, 2016. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241549806. Acesso em: 04 jun. 2026.
CALIFORNIA DEPARTMENT OF PUBLIC HEALTH. Syphilis Treatment Intervals in Non-Pregnant Patients: A Clinical Resource for Providers. California: CDPH, 2023. Disponível em: https://www.cdph.ca.gov/Programs/CID/DCDC/CDPH%20Document%20Library/Syphilis-Treatment-Intervals-in-Non-Pregnant-Patients-A-Clinical-Resource-for-Providers.pdf. Acesso em: 04 jun. 2026.
Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)
SILVA FILHO, Rubens Moraes. Intervalo inferior a sete dias entre doses de benzilpenicilina benzatina no tratamento da sífilis em pessoa não gestante: uma revisão narrativa sobre validade terapêutica. Disponível em: https://revistadifatto.com.br/artigos/intervalo-inferior-a-sete-dias-entre-doses-de-benzilpenicilina-benzatina-no-tratamento-da-sifilis-em-pessoa-nao-gestante-uma-revisao-narrativa-sobre-validade-terapeutica/. Acesso em: 17/06/2026.
