Paisagem, território e poder em tempos de crise: uma análise crítica das disputas socioambientais e a luta por justiça

Categoria: Ciências Humanas Subcategoria: Antropologia

Este artigo foi disponibilizado diretamente pelo autor e ainda não passou por revisão editorial.

Submissão: 19/02/2026

Autores

Foto do Autor
Marcio Henrique Francisco de Souza

Curriculo do autor: Possui graduação em Ciências Biológicas e Ambientais, pela Fundação Educacional de Além Paraíba. Graduando em Direito, pela Fundação Educacional de Além Paraíba. Pós- graduado em Ciências Sociais, em Ciências Políticas, e em Antropologia, pela FANS. Pós-graduado em Arqueologia e Patrimônio, pela Faculdade Fleming de Cerquilho. Pós-graduado em Arquivo: Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, pela faculdade Iguaçu. Mestrando em Arqueologia , pelo Centro Internacional de Pesquisa Integralize.

Insira o texto exatamente como deseja que apareça na sua declaração. Se for aprovado pela revista, sua declaração sairá conforme pré-visualização abaixo

Resumo

O artigo propõe uma análise crítica das paisagens como construções sociais, políticas e históricas marcadas por disputas de poder em contextos de múltiplas crises. A paisagem é compreendida como território em conflito, atravessado por desigualdades ambientais, étnico-raciais, de classe e de gênero. O texto enfatiza a resistência de comunidades indígenas, quilombolas, camponesas e periféricas diante da mercantilização da natureza e da gentrificação urbana, destacando as paisagens vernaculares como expressão de memórias, identidades e saberes ancestrais. Com base em aportes da ecologia política, dos estudos culturais e das metodologias sensíveis como as contra-cartografias, o artigo evidencia a centralidade da justiça socioambiental, da escuta comunitária e da valorização das territorialidades subalternizadas. Ao abordar as estéticas da resistência na arte, literatura e audiovisual, propõe-se repensar a paisagem como um direito coletivo e intergeracional, orientado pela participação social, pela diversidade cultural e por práticas de desenvolvimento mais justas e sustentáveis.

Palavras-Chave

Paisagem. Território e poder. Conflitos socioambientais. Justiça socioambiental. Territorialidades subalternizadas.

Abstract

The article proposes a critical analysis of landscapes as social, political, and historical constructions marked by power struggles in contexts of multiple crises. The landscape is understood as a territory in conflict, crossed by environmental, ethnic-racial, class and gender inequalities. The text emphasizes the resistance of indigenous, quilombola, peasant and peripheral communities in the face of the commodification of nature and urban gentrification, highlighting vernacular landscapes as an expression of ancestral memories, identities and knowledge. Based on contributions from political ecology, cultural studies and sensitive methodologies such as counter-cartographies, the article highlights the centrality of socio-environmental justice, community listening and the valorization of subalternized territorialities. By addressing the aesthetics of resistance in art, literature and audiovisual, it proposes to rethink the landscape as a collective and intergenerational right, guided by social participation, cultural diversity and fairer and more sustainable development practices.

Keywords

Landscape. Territory and power. Socio-environmental conflicts. Socio-environmental justice. Subalternized territorialities.

Introdução

A paisagem, longe de representar um mero cenário estático ou um pano de fundo passivo das ações humanas, deve ser compreendida como um constructo histórico, social e político, continuamente ressignificado a partir das relações de poder que permeiam o espaço geográfico. No contexto contemporâneo, marcado por transformações socioeconômicas aceleradas, aprofundamento das desigualdades e agravamento da crise climática, a paisagem emerge como território de disputa, onde se manifestam conflitos entre projetos hegemônicos de desenvolvimento e modos de vida historicamente marginalizados. Assim, torna-se fundamental interrogar a paisagem não apenas como forma ou aparência, mas como campo simbólico e material de produção e contestação territorial.

Este artigo propõe uma abordagem crítica e interdisciplinar sobre os processos de conformação da paisagem em meio a cenários de colapso ambiental, mercantilização da natureza e erosão de vínculos comunitários. A análise parte do pressuposto de que a paisagem é simultaneamente expressão e instrumento de poder, sendo moldada por políticas territoriais, discursos técnicos e narrativas culturais que muitas vezes invisibilizam práticas ancestrais e formas alternativas de habitar o mundo.

A relevância da proposta reside na urgência de compreender as múltiplas dimensões, ecológicas, políticas, sociais, estéticas e simbólicas, que estruturam as disputas em torno da paisagem, com especial atenção às interseções entre raça, classe e gênero no direito à terra e à memória. A partir do diálogo com campos como a geografia crítica, a ecologia política, os estudos culturais, o urbanismo e a história ambiental, o artigo busca não apenas descrever os conflitos socioambientais, mas também revelar as estruturas de dominação e as estratégias de resistência que se entrelaçam na produção contemporânea das paisagens. Em tempos de crise, refletir criticamente sobre o território e suas paisagens é uma exigência ética e política diante do desafio de construir futuros sustentáveis e socialmente justos.

Ao longo deste trabalho, analisam-se diversos vetores que compõem a paisagem como espaço de disputa e construção coletiva. Inicialmente, aborda-se a crise climática como fator estruturante das transformações territoriais contemporâneas, com ênfase nos impactos desiguais sobre populações vulnerabilizadas e nos limites das políticas ambientais convencionais, frequentemente alheias aos saberes tradicionais e às realidades locais. A partir da ecologia política, discute-se como os efeitos da emergência climática não são neutros, mas profundamente atravessados por desigualdades históricas e por lógicas extrativistas que intensificam a precarização ambiental e social.

Em seguida, o artigo examina as interseções entre raça, classe e gênero no acesso à paisagem e na produção dos espaços habitáveis, destacando as territorialidades indígenas, quilombolas, campesinas e periféricas como formas contra-hegemônicas de existência e resistência. Essas territorialidades não apenas desafiam os modelos de ordenamento dominante, mas também revelam outras epistemologias e estéticas de relação com a terra e com o ambiente, frequentemente invisibilizadas pelo planejamento urbano, pela conservação excludente e pelas políticas públicas padronizadas.

Por fim, explora-se a paisagem enquanto suporte de memórias coletivas, práticas culturais e modos de vida que enfrentam processos de apagamento e substituição como a gentrificação patrimonial, a homogeneização turística e a desterritorialização forçada. São discutidas, nesse sentido, as paisagens vernaculares em risco, as estéticas da resistência articuladas pela arte, literatura e audiovisual, e as metodologias sensíveis, como as contra-cartografias e os mapeamentos afetivos, que buscam recuperar olhares plurais sobre o território.

Essa estrutura propõe, portanto, um percurso analítico que articula crítica e construção, denúncia e proposição. Em tempos de múltiplas crises ecológica, política, social e epistemológica, compreender a paisagem como campo de disputa é reconhecer que os espaços que habitamos não são dados, mas produzidos; não são neutros, mas ideologicamente conformados; não são apenas locais de vida, mas também de luta. Este artigo, assim, convida à reflexão sobre o presente e à imaginação de futuros possíveis, guiados pela justiça socioambiental, pela valorização dos saberes ancestrais e pela defesa da diversidade territorial e cultural.

Paisagens em conflito: crise climática, disputas territoriais e injustiças

A intensificação da crise climática global tem evidenciado e agravado as disputas territoriais em diversas regiões do mundo, transformando a paisagem em um campo dinâmico de tensões, resistências e desigualdades. As manifestações cada vez mais severas das mudanças no clima, como secas prolongadas, inundações repentinas, escassez de água potável e elevação do nível dos oceanos, provocam impactos que não são uniformemente distribuídos entre os diferentes grupos sociais. Ao contrário, essas transformações afetam de maneira desproporcional as populações historicamente marginalizadas, revelando as camadas profundas de injustiça socioambiental estruturadas pelo modelo de desenvolvimento hegemônico. Como destacam Da Rosa e Fleury (2024, 60), a crise climática é também uma crise da desigualdade social, na qual o acesso à justiça ambiental é profundamente assimétrico.

Essas paisagens em conflito não resultam apenas de fenômenos naturais, mas são, sobretudo, produtos de processos políticos, econômicos e históricos. O avanço de atividades extrativistas, como o agronegócio e a mineração, e a implementação de grandes projetos de infraestrutura em nome do progresso frequentemente implicam na expulsão de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas de seus territórios ancestrais. Como afirmam Zhouri, Laschefski e Pereira (2024), as políticas de desenvolvimento baseadas na exploração intensiva dos recursos naturais têm sido um dos principais motores dos conflitos socioambientais. Essas intervenções, promovidas com base em uma lógica de mercado, desconsideram os vínculos simbólicos e culturais estabelecidos com o território, reduzindo a paisagem a um mero recurso econômico a ser explorado.

Em contextos de crise climática, esses conflitos se intensificam. A degradação ambiental e a escassez de bens comuns, como terra fértil e água, elevam a pressão sobre territórios já fragilizados e aumentam os deslocamentos forçados de populações vulneráveis. De acordo com Svampa (2020, 47), o avanço do neoextrativismo aprofunda processos de desterritorialização e precarização de populações locais, convertendo os territórios em zonas de sacrifício.

Além disso, a paisagem carrega marcas da desigualdade espacial e do racismo ambiental. Nas periferias urbanas, por exemplo, comunidades negras e de baixa renda frequentemente ocupam áreas de risco, sujeitas a deslizamentos, alagamentos e poluição. Esses territórios, muitas vezes invisibilizados nas políticas públicas, são também os mais negligenciados em ações de mitigação e adaptação climática. A desigualdade no acesso a condições ambientais adequadas revela o caráter seletivo das políticas de planejamento e gestão territorial. Como observam Oliveira, Zhouri e Dumpty (2005), as populações impactadas por grandes projetos raramente têm suas realidades consideradas nas avaliações de impacto, tornando-se vítimas de múltiplas camadas de exclusão.

Nesse sentido, a ecologia política, ao integrar saberes ambientais e ciências sociais, contribui para compreender essas paisagens em disputa como expressões concretas de relações desiguais de poder. Segundo Souza e Milanez (2016, 6), os conflitos socioambientais expressam disputas por significados, usos e controle dos bens naturais, refletindo as desigualdades estruturais da sociedade. Nesse sentido, a luta por justiça socioambiental exige a superação de visões tecnocráticas e universalistas que desconsideram os contextos locais e os saberes tradicionais. É necessário reconhecer que os conflitos ambientais não se limitam à escassez de recursos, mas envolvem disputas por formas de existir, produzir e conviver com a natureza.

Assim, refletir criticamente sobre as paisagens em tempos de crise climática implica reconhecer que elas são, ao mesmo tempo, territórios de violência e de resistência. O fortalecimento das territorialidades populares, o respeito aos direitos coletivos e a valorização dos modos de vida sustentáveis constituem caminhos possíveis para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas e construir horizontes mais justos e plurais. Como colocam Braga et all. (2024), a paisagem é um campo de disputa simbólica e material, onde diferentes sujeitos sociais afirmam suas existências e reivindicações frente ao colapso climático.

Para enfrentar os efeitos da crise climática e das disputas territoriais sobre as paisagens, é imprescindível que políticas públicas sejam formuladas a partir de uma perspectiva de justiça ambiental. Isso implica reconhecer o direito à terra, à água e ao território como dimensões fundamentais da cidadania e da dignidade humana. No entanto, as ações estatais ainda se mostram insuficientes diante da complexidade das ameaças socioambientais que recaem sobre os grupos mais vulnerabilizados. Conforme assinala Almeida (2020, 88), a efetivação da justiça ambiental nas comunidades quilombolas exige o reconhecimento pleno dos seus territórios tradicionais como condição básica para a reprodução da vida. Frequentemente, os marcos normativos existentes são desrespeitados ou flexibilizados para atender a interesses econômicos de curto prazo, contribuindo para a perpetuação das desigualdades territoriais.

Além disso, a participação social na construção de políticas ambientais e climáticas segue limitada por estruturas burocráticas e pela exclusão de vozes dissidentes. Povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais têm denunciado sistematicamente a omissão do Estado e os impactos devastadores de projetos que desconsideram as dinâmicas socioecológicas locais. Segundo Mantelli, Bicalho e Siemons (2024, 63), o marco temporal, ao negar os direitos originários dos povos indígenas, reforça a lógica colonial de ocupação e exploração dos territórios. A consulta livre, prévia e informada, prevista na Convenção 169 da OIT, raramente é respeitada, o que evidencia a fragilidade da democracia ambiental no Brasil e em diversos países do Sul Global.

Por outro lado, surgem práticas alternativas que revelam a potência das resistências locais na reconstrução de paisagens justas e sustentáveis. Experiências de agroecologia, gestão comunitária da água, reflorestamento com espécies nativas e educação ambiental crítica demonstram que existem caminhos viáveis, já em curso, que se contrapõem à lógica predatória dominante. Como defendem Layrargues e Puggian (2018, 145), as práticas educativas engajadas nos movimentos sociais são espaços de construção coletiva de saberes, de fortalecimento da identidade e de resistência aos modelos hegemônicos de desenvolvimento. Essas iniciativas, enraizadas em saberes tradicionais e em vínculos afetivos com a terra, apontam para uma outra forma de relação com o território, baseada no cuidado, na solidariedade e na reciprocidade.

A leitura das paisagens como expressões materiais de conflitos socioambientais também nos convida a repensar o próprio conceito de natureza. Longe de ser uma entidade separada da sociedade, a natureza está implicada em redes de significados, práticas culturais e relações de poder. Como colocam Colerato et all. (2023), a crise climática e o antropoceno exigem perspectivas ecofeministas que descentrem o humano e liberem a vida em sua plenitude e diversidade. Assim, proteger a paisagem não se reduz à conservação de espaços naturais, mas envolve a defesa das vidas humanas e não humanas que os compõem, especialmente aquelas sistematicamente silenciadas ou deslegitimadas pelo modelo dominante de desenvolvimento.

Por fim, a construção de um futuro climático justo requer a articulação entre ciência, movimentos sociais, políticas públicas e educação crítica. É preciso tensionar os paradigmas econômicos que naturalizam a desigualdade, promover a reparação histórica dos povos excluídos dos processos decisórios e garantir a autonomia das comunidades sobre seus territórios. O reconhecimento das paisagens em conflito como territórios de vida e resistência deve orientar estratégias de transformação que priorizem os direitos coletivos, a diversidade cultural e a preservação dos bens comuns. As paisagens vivenciadas e sentidas revelam dimensões de justiça socioambiental que escapam aos enquadramentos jurídicos tradicionais, exigindo abordagens mais integradas e sensíveis à diversidade dos territórios.

Paisagens e disputas territoriais em contextos de crise climática

A crise climática configura-se como uma das principais forças de transformação das paisagens contemporâneas, não apenas pelos seus impactos físicos e ecológicos, mas sobretudo por seu papel na reconfiguração dos conflitos territoriais (Da Rosa; Fleury, 2024). A intensificação de eventos extremos, como secas prolongadas, inundações, incêndios florestais e elevação do nível do mar atua como catalisadora de tensões socioambientais em diversas regiões do globo, tornando a paisagem um campo visível de disputa por recursos naturais, território e dignidade.

No contexto brasileiro, essas dinâmicas são particularmente evidentes em regiões historicamente marcadas por vulnerabilidades socioambientais, como o semiárido nordestino. A desertificação, agravada pela elevação das temperaturas médias e pela irregularidade das chuvas, tem comprometido a segurança hídrica e alimentar de milhares de comunidades. Segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023), a temperatura média global já aumentou cerca de 1,1 °C em relação aos níveis pré-industriais, com projeções alarmantes de aumento na intensidade e na frequência de fenômenos climáticos extremos nas próximas décadas. No semiárido, esse aumento térmico resulta em perdas na produtividade agrícola, esgotamento de nascentes e escassez hídrica prolongada.

Essas alterações ambientais impactam diretamente as paisagens rurais e os modos de vida tradicionais que delas dependem. Comunidades indígenas, quilombolas e camponesas vêm enfrentando deslocamentos forçados, perda de terras produtivas e aumento da competição por recursos naturais. Em muitos casos, o avanço do agronegócio e de projetos de infraestrutura como barragens e parques eólicos, acirra essas disputas, muitas vezes legitimadas por discursos de desenvolvimento sustentável que invisibilizam os direitos territoriais dos povos originários e tradicionais (Mantelli; Bicalho; Siemons, 63). Assim, a crise climática, longe de ser apenas um fenômeno natural, revela-se como um processo profundamente político, atravessado por relações de poder, exclusão e resistência.

A ecologia política oferece ferramentas analíticas relevantes para compreender essas dinâmicas. Ao evidenciar os nexos entre degradação ambiental e desigualdade social, esse campo do saber destaca como os impactos das mudanças climáticas não são distribuídos de forma equitativa, mas afetam de maneira desproporcional as populações já historicamente marginalizadas. Como aponta Alimonda (2020), a colonização ambiental persiste na forma de políticas públicas que desconsideram os saberes locais, expropriam territórios e aprofundam assimetrias no acesso aos bens comuns (Alimonda, 2020, 78).

Nesse contexto, a paisagem transforma-se em testemunho e produto de um embate entre diferentes projetos de futuro. De um lado, a lógica extrativista e mercantilizante que vê a natureza como recurso a ser explorado; de outro, os modos de vida enraizados em relações simbióticas com o território, que reivindicam o direito de permanecer, produzir e existir de forma sustentável. A disputa pela paisagem, portanto, é também uma disputa por narrativas, por reconhecimento e por justiça.

Interseções entre raça, classe, gênero e o direito à paisagem

Essas desigualdades não são apenas resultado de escolhas políticas recentes, mas refletem heranças coloniais e patriarcais que moldaram a organização dos espaços urbanos e rurais. A colonização impôs um regime de apropriação e exclusão que até hoje estrutura o acesso à terra e aos recursos naturais. Como apontam Almeida et all. (2021), a colonialidade persiste nas formas como os patrimônios e os territórios são definidos e geridos, silenciando narrativas de grupos subalternizados e perpetuando desigualdades estruturais. Mulheres negras, indígenas e quilombolas, por exemplo, têm seus saberes territoriais sistematicamente desconsiderados nas decisões sobre uso do solo, preservação ambiental e regularização fundiária. Apesar de desempenharem papéis centrais na gestão comunitária e na preservação ambiental, continuam invisibilizadas nas políticas públicas e nos debates institucionais sobre o futuro das paisagens.

O direito à paisagem, portanto, deve ser compreendido como um direito coletivo e situado, que incorpora não apenas o acesso físico aos territórios, mas também o reconhecimento das identidades, culturas e memórias que os constituem. De acordo com Silva (2019), a paisagem não é neutra, ela é carregada de significados afetivos e sociais que refletem disputas de poder e pertencimento nos espaços urbanos. Ao reivindicar esse direito, comunidades racializadas e de baixa renda estão também lutando por dignidade, pertencimento e autonomia. A violência ambiental que enfrentam não se expressa apenas na ausência de áreas verdes ou na exposição a riscos climáticos, mas também na negação do direito de existir plenamente em seus espaços.

Nos contextos rurais, essa lógica de exclusão se expressa na grilagem de terras, na expansão do agronegócio e na criminalização de defensores e defensoras do território. Como afirma De Jesus (2023, 331), a interseccionalidade permite compreender como as opressões se articulam na vivência concreta dos sujeitos, tornando indispensável o reconhecimento dos direitos territoriais de populações historicamente oprimidas. Mulheres camponesas e lideranças indígenas, muitas vezes na linha de frente da resistência, enfrentam ameaças, violências e a destruição de modos de vida profundamente conectados às paisagens naturais e culturais. Ainda que marginalizadas, essas vozes têm se articulado em redes de solidariedade, movimentos sociais e iniciativas de justiça ambiental que propõem outras formas de relação com o mundo.

A superação dessas injustiças exige uma abordagem interseccional nas políticas ambientais, urbanas e territoriais. Segundo De Souza e Ratts (2008, 149), a leitura geográfica da interseccionalidade permite visualizar como os sistemas de dominação se espacializam, afetando de maneira distinta os corpos racializados e generificados nos territórios. Isso significa considerar, desde a formulação até a implementação de políticas públicas, as experiências e necessidades de grupos historicamente oprimidos. A criação de instrumentos participativos efetivos, o fortalecimento de mecanismos de consulta comunitária e o reconhecimento dos direitos territoriais coletivos são passos fundamentais para garantir uma paisagem verdadeiramente democrática.

Por fim, pensar as interseções entre raça, classe, gênero e paisagem é também repensar o próprio conceito de bem comum. Como apontam Varjão, Monteiro e Da Silva Santana (2024, e230377), os corpos dissidentes ressignificam os espaços, tensionando as normatividades e produzindo outras formas de existir que escapam à lógica hegemônica do território. Em vez de tratar o território como mercadoria ou recurso a ser explorado, é necessário reconhecê-lo como espaço de vida, de história e de resistência. Valorizar as experiências e os saberes de grupos subalternizados não é apenas uma questão de justiça social, mas uma condição essencial para enfrentar os desafios ambientais contemporâneos e construir futuros mais equitativos e sustentáveis.

Nesse cenário, as lutas por justiça ambiental revelam-se não apenas como enfrentamento aos impactos da degradação ecológica, mas como ações profundamente políticas que questionam quem tem direito a existir plenamente nas paisagens e com quais vozes essas paisagens são narradas. Braga et all. (2024) destacam que as disputas pela paisagem se dão tanto no plano material quanto simbólico, envolvendo o reconhecimento dos sujeitos e saberes que a constroem no cotidiano, especialmente em contextos de emergência climática. Movimentos de base comunitária, redes de mulheres, coletivos negros e indígenas têm reivindicado seus territórios como espaços de memória, pertencimento e construção de alternativas ao modelo extrativista e excludente dominante. Suas práticas cotidianas, que articulam cuidado com a terra, saberes ancestrais e organização comunitária, constituem formas concretas de resistência e reexistência.

Ao mesmo tempo, é necessário que o Estado e as instituições públicas assumam uma postura de escuta ativa e compromisso com essas populações. Como propõe Silva (2019), a construção de uma geografia do olhar implica reconhecer as múltiplas formas de ver e viver a cidade, incorporando os saberes populares na gestão dos espaços e na formulação de políticas públicas. Isso inclui o reconhecimento legal de territórios tradicionais, a demarcação e proteção de terras indígenas e quilombolas, o combate à gentrificação urbana e a promoção de políticas intersetoriais que considerem as múltiplas dimensões da justiça socioespacial. Projetos de urbanismo participativo, agroecologia, reflorestamento comunitário e recuperação de áreas degradadas com protagonismo local são exemplos de iniciativas que podem restaurar o vínculo entre pessoas e paisagens de forma justa e regenerativa.

A disputa pelas paisagens, portanto, não se restringe ao campo físico, mas se estende ao simbólico e político. Quem nomeia, representa e decide sobre os territórios está, na prática, definindo os rumos da justiça ambiental e da democracia. Apenas assim será possível transformar as paisagens em conflito em paisagens de encontro, cuidado e justiça.

Narrativas, memórias e estéticas da paisagem

A paisagem é um repositório de memórias coletivas e individuais, sendo também palco para a construção de narrativas que podem reafirmar ou desafiar as lógicas dominantes. Cada território carrega histórias, afetos, traumas e resistências, muitas vezes invisibilizados pelos discursos oficiais e pelas práticas urbanísticas ou rurais hegemônicas. Como afirma Eckert (2008), os jogos da memória produzem sentidos diversos às paisagens urbanas, desvelando múltiplas camadas de temporalidades e experiências. As intervenções no espaço, como obras de infraestrutura, monumentos ou políticas de revitalização, tendem a selecionar quais memórias são preservadas e quais são apagadas, revelando um conflito simbólico pelo controle da paisagem.

A estética da paisagem, nesse contexto, não é neutra. Ela expressa escolhas políticas sobre o que é valorizado como belo, digno de cuidado ou investimento, e o que é descartável ou marginal. Segundo Vieira e Verdum (2017, 132), a paisagem cênica é muitas vezes resultante de uma seletividade estética que exclui os elementos dissonantes ou os que destoam do ideal de beleza dominante. A marginalização de territórios periféricos e de comunidades tradicionais reflete também uma estética colonial que associa ordem, limpeza e progresso a determinados padrões eurocentrados, em detrimento das formas de habitar e de construir o espaço por populações racializadas, pobres e indígenas.

As narrativas que emergem dessas paisagens, quando contadas pelas próprias comunidades, oferecem contravisões potentes. Como destaca Alencar (2007), a narrativa oral é uma ferramenta fundamental na construção da memória social e na ressignificação das paisagens pelas populações que as habitam. A oralidade, a arte popular, os rituais, as expressões culturais e os modos de uso da terra constituem linguagens que ressignificam o espaço e desafiam a homogeneização imposta pelo capital. Reivindicar o direito à paisagem é, portanto, também reivindicar o direito à memória e à expressão estética plural, reconhecendo a diversidade de sentidos atribuídos ao território.

A promoção de uma justiça paisagística requer a escuta ativa dessas vozes, a valorização das memórias locais e a inserção de saberes plurais nos processos de planejamento, preservação e requalificação dos espaços. A fotografia permite acessar e reconstituir narrativas esquecidas da paisagem urbana, possibilitando um novo olhar sobre o que foi silenciado. É por meio dessas narrativas múltiplas que se abre caminho para paisagens verdadeiramente inclusivas, regenerativas e democraticamente construídas.

Paisagens vernaculares e memórias coletivas em risco

As paisagens vernaculares são espaços construídos e transformados pela ação contínua das comunidades locais, por meio de suas práticas cotidianas, saberes ancestrais e relações com o território. Elas não são apenas o resultado da ocupação física de um espaço, mas o reflexo material de uma cultura viva, que incorpora as tradições, histórias, valores e memórias coletivas desses grupos. Como afirmam Mantelli, Bicalho e Siemons (2023, 63), as paisagens revelam modos de existência historicamente constituídos, que se expressam em práticas de cuidado com o território e em resistências diante das múltiplas violências do extrativismo e do colonialismo. Nesse sentido, essas paisagens tornam-se testemunhos essenciais para a compreensão da diversidade cultural, social e histórica de uma região, representando uma identidade construída ao longo do tempo e transmitida de geração em geração.

Em muitas regiões do Brasil, sobretudo no interior de Minas Gerais, essas paisagens vernaculares se manifestam em vilarejos históricos, com arquitetura colonial, modos de vida rurais e uma relação intrínseca com o ambiente natural ao seu redor. São espaços onde as práticas tradicionais, como o cultivo de subsistência, o uso de técnicas artesanais e a realização de festividades locais, se entrelaçam com o cotidiano das populações. Essa interação dinâmica entre homem e natureza, cultura e território, configura uma paisagem que não é estática, mas que se renova, preservando a memória coletiva e a identidade cultural dessas comunidades. De acordo com Alvarenga (2015, 285), a paisagem, como memória viva dos povos, representa um elo entre a ancestralidade e o presente, servindo como instrumento de identidade, pertencimento e resistência.

No entanto, a sobrevivência dessas paisagens vernaculares está seriamente ameaçada no cenário contemporâneo. O avanço acelerado da urbanização, a especulação imobiliária, a mineração predatória e a expansão do turismo não planejado impõem pressões severas sobre esses territórios. Svampa (2020) adverte que o modelo neoextrativista, intensificado na América Latina, promove não só a destruição ambiental, mas também o esvaziamento cultural e simbólico dos territórios. A expansão das cidades e a valorização econômica das áreas próximas aos centros urbanos acabam por descaracterizar as paisagens tradicionais, substituindo-as por construções modernas e infraestruturas que não dialogam com a história e os modos de vida locais.

No contexto de Minas Gerais, esse fenômeno é particularmente grave. Vilarejos históricos que, por décadas, mantiveram seus traços coloniais e rurais estão sofrendo transformações que comprometem sua essência. A mineração, uma das principais atividades econômicas da região, promove a degradação ambiental e social, alterando não só o território, mas também o tecido comunitário. Segundo Assis (2023), a mineração atua como força de desorganização territorial, reconfigurando relações sociais, econômicas e ecológicas nos territórios atingidos. Por outro lado, o turismo predatório, muitas vezes baseado em modelos massificados e pouco sensíveis à cultura local, contribui para a homogeneização das paisagens e para a perda dos saberes tradicionais.

Essa descaracterização das paisagens vernaculares representa uma ameaça direta à memória coletiva das comunidades. Quando um lugar perde suas características originais, apaga-se também a narrativa que ele sustenta, a história de seus habitantes e as experiências compartilhadas que lhes conferem sentido de pertencimento. Como ressalta Domingues (2021, 17), a paisagem transformada pela lógica do capital deixa de ser espaço de memória para tornar-se superfície de rentabilidade. A identidade cultural, fortemente vinculada ao território, fica fragilizada, e as gerações futuras podem perder o contato com suas raízes, diminuindo a diversidade cultural e a riqueza histórica do país.

Diante desse cenário, é fundamental reconhecer a importância da preservação das paisagens vernaculares como patrimônio cultural imaterial e material. Essa preservação deve ir além da simples conservação de edifícios ou sítios históricos, englobando o reconhecimento das práticas culturais, dos modos de vida e dos saberes locais que dão significado a esses espaços. Como afirmam Da Rosa e Fleury (2024, 68), preservar paisagens significa preservar modos de vida, sistemas de conhecimento e práticas sociais que enfrentam hoje múltiplas ameaças. Políticas públicas, planejamento territorial participativo e o fortalecimento das comunidades locais são caminhos essenciais para garantir a manutenção dessas paisagens e, consequentemente, das memórias coletivas que elas carregam.

Além disso, é necessário promover uma educação patrimonial que sensibilize a sociedade para o valor das paisagens vernaculares, estimulando o respeito e a valorização das diversidades culturais. Bertrand et all. (1972) destacam que a paisagem é ao mesmo tempo herança, produto e reflexo das ações humanas sobre o meio natural, sendo, portanto, um objeto de educação. A participação ativa das comunidades no processo de preservação deve ser estimulada, pois são elas as principais detentoras e transmissores desses saberes e histórias.

Em suma, as paisagens vernaculares são espaços vivos, carregados de história e cultura, que guardam as memórias coletivas de seus povos. Sua conservação é uma forma de proteger a identidade cultural e a diversidade histórica do Brasil. O desafio contemporâneo está em conciliar o desenvolvimento econômico e urbano com o respeito à cultura local, para que essas paisagens não se percam, e o patrimônio imaterial e material das comunidades seja preservado para as futuras gerações. Reconhecer as paisagens como arenas políticas de disputa e criação de futuros é um passo crucial para o planejamento inclusivo e sensível às múltiplas existências que habitam os territórios.

Patrimônio, paisagem e processos de gentrificação

A relação entre patrimônio, paisagem e gentrificação é marcada por tensões e contradições que refletem os desafios contemporâneos da preservação cultural e do desenvolvimento urbano. O patrimônio cultural, entendido como o conjunto de bens materiais e imateriais que representam a história e a identidade de uma comunidade, muitas vezes está diretamente associado à valorização de paisagens específicas. De acordo com Oliveira, Zhouri e Dumpty (2005, 8), a paisagem é mais do que um espaço físico; é o palco das relações sociais, econômicas e culturais que se manifestam na disputa por recursos e na resistência das populações locais. No entanto, essa valorização pode, paradoxalmente, desencadear processos de exclusão social e territorial, conhecidos como gentrificação, que alteram profundamente a dinâmica original das áreas protegidas.

A gentrificação refere-se a um fenômeno urbano em que áreas antes ocupadas predominantemente por populações de baixa renda passam por um processo de requalificação e valorização imobiliária. Isso geralmente ocorre a partir da intervenção de agentes privados ou públicos interessados em explorar o potencial econômico desses espaços, especialmente quando estes possuem valor histórico, arquitetônico ou cultural reconhecido. Conforme apontam Zhouri, Laschefski e Pereira (2024, 67), o desenvolvimento urbano pautado exclusivamente no capital e na valorização econômica do espaço tende a ignorar as populações tradicionais, promovendo um deslocamento social que resulta em injustiças territoriais profundas. A consequência imediata desse processo é a elevação dos custos de moradia e o deslocamento dos moradores tradicionais, que são frequentemente substituídos por grupos sociais com maior poder aquisitivo.

Um exemplo emblemático desse fenômeno é o Centro Histórico de Salvador, na Bahia. Tombado pela UNESCO como Patrimônio Mundial, o centro da cidade passou por programas de revitalização urbana e requalificação da paisagem, com investimentos em infraestrutura, restauração de edificações e promoção do turismo cultural. Tais ações buscaram valorizar o patrimônio histórico e cultural local, preservando sua arquitetura colonial, sua riqueza artística e seus saberes populares. Contudo, esse processo também gerou efeitos colaterais negativos, como a gentrificação, que provocou o aumento do preço dos aluguéis e o consequente deslocamento de moradores de baixa renda que viviam na região há gerações. Como observa Almeida (2020, 45), a valorização do território tradicional é uma condição essencial para a justiça social, especialmente para as comunidades quilombolas, mas quando a política pública não considera essa dimensão, o deslocamento e a perda territorial são inevitáveis.

Nesse contexto, a paisagem passa a ser tratada como uma mercadoria, cujo valor está atrelado ao seu apelo estético, histórico e turístico, em detrimento das histórias e vidas dos habitantes originais. Braga et all. (2024, 23) alertam que as políticas de paisagem muitas vezes reproduzem a lógica da mercantilização, onde o espaço é despojado de suas complexas significações sociais para atender às demandas do mercado imobiliário e do turismo, intensificando processos de exclusão. A valorização da paisagem, embora importante para a preservação do patrimônio, pode se transformar em um mecanismo de segregação social, onde o direito à moradia e à permanência no território é negado às populações tradicionais. A disputa por esses espaços evidencia um conflito entre diferentes interesses e visões sobre o que deve ser preservado e para quem o patrimônio é destinado.

A discussão sobre a definição de patrimônio é, portanto, fundamental para compreender os impactos sociais da gentrificação. Quem detém o poder de decidir quais paisagens e bens culturais merecem proteção? Para quem esses espaços são preservados? Muitas vezes, as decisões são tomadas sem a participação efetiva das comunidades locais, resultando em políticas que privilegiam a promoção econômica e o turismo em detrimento do direito dos moradores. De Souza e Milanez (2016, 5) enfatizam que a ausência da participação popular nas decisões sobre o território reforça as desigualdades e os conflitos socioambientais, pois legitima os interesses econômicos em detrimento dos direitos sociais e ambientais das populações vulneráveis. A ausência do diálogo e da inclusão social nesses processos contribui para a perda da diversidade cultural e para a fragmentação dos territórios.

Além disso, o patrimônio não deve ser compreendido apenas como um conjunto estático de objetos ou espaços históricos, mas sim como um processo vivo e dinâmico que envolve as relações sociais e culturais das comunidades. A preservação deve contemplar as dimensões materiais e imateriais da cultura, incluindo as práticas, saberes e memórias dos habitantes. Layrargues e Puggian (2018, 138) reforçam essa perspectiva ao afirmar que a educação ambiental e patrimonial deve emergir das lutas sociais e da defesa do território, reconhecendo a importância das memórias e saberes locais para a construção de uma cultura de resistência contra o desenvolvimentismo capitalista. Isso requer políticas públicas integradas, que promovam a valorização do patrimônio sem provocar exclusão social, garantindo o direito à cidade e a manutenção dos laços comunitários.

Algumas experiências em Salvador e em outras cidades brasileiras têm buscado enfrentar esse desafio, adotando modelos participativos de gestão do patrimônio e de planejamento urbano. A inclusão das comunidades nos processos decisórios, o incentivo a atividades culturais locais e a promoção de políticas habitacionais que previnam o deslocamento são estratégias que podem mitigar os efeitos negativos da gentrificação. Oliveira, Zhouri e Dumpty (2005, 10) ressaltam que a participação das populações locais é fundamental para a construção de políticas mais justas, que considerem as necessidades e o conhecimento das comunidades afetadas pelos processos de valorização urbana. Contudo, esses esforços ainda são insuficientes diante da pressão do mercado imobiliário e das políticas públicas que privilegiam o capital.

Em síntese, o entrelaçamento entre patrimônio, paisagem e gentrificação revela um campo complexo, onde a valorização cultural e estética das cidades pode coexistir com a exclusão social. Reconhecer a paisagem como um direito coletivo e promover a gestão democrática do patrimônio são passos essenciais para evitar que a preservação do patrimônio se transforme em ferramenta de segregação. Como destacam De Oliveira Santos, De Almeida e De Oliveira (2020, 89), a justiça socioambiental demanda que o território seja compreendido não apenas como espaço físico, mas como lugar de identidade e pertencimento, garantindo o direito à cidade para todos, independentemente das pressões econômicas e políticas. A construção de cidades justas e inclusivas passa necessariamente pela articulação entre preservação cultural, respeito às memórias coletivas e garantia de direitos para todos os habitantes.

Estéticas da resistência e da destruição: representações da paisagem em arte, literatura e audiovisual

A paisagem é mais do que um cenário físico; ela é um espaço carregado de significados, histórias e conflitos sociais que atravessam o tempo e moldam as identidades coletivas. Ferreira (s.d., 15) destaca que a fotografia como meio de pesquisa revela a narratização da paisagem urbana, mostrando as casas em ruínas como testemunhos da memória coletiva e do esquecimento. Nesse sentido, a arte, a literatura e o audiovisual desempenham um papel fundamental na forma como a paisagem é representada, interpretada e reinventada, funcionando tanto como um meio de denúncia da sua destruição quanto como uma celebração da resiliência das comunidades que a habitam.

No campo audiovisual, o filme brasileiro Bacurau (2019), dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, oferece uma potente estética da resistência ao utilizar a paisagem do sertão nordestino como palco para uma narrativa que envolve luta, solidariedade e enfrentamento à violência externa. Andrade (2016, 42) argumenta que as imagens e narrativas do cinema contemporâneo constroem corpos e paisagens que traduzem as memórias e identidades, sendo instrumentos de resistência frente às opressões sociais e culturais. A representação do sertão vai além da mera ambientação; ela se torna um personagem vivo que reflete a força cultural e a capacidade de sobrevivência dos moradores diante da ameaça da invasão e do apagamento. Essa estética da resistência propõe uma leitura crítica da paisagem, evidenciando as tensões entre o povo e as forças que tentam dominar e destruir seu modo de vida.

Na literatura, diversas obras também exploram as relações entre a paisagem e as lutas sociais. Poetas e escritores brasileiros, por exemplo, têm historicamente usado a paisagem como metáfora para a opressão e a esperança, construindo imagens que denunciam a exploração e celebram a persistência das tradições populares. João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, utiliza o sertão nordestino como símbolo da exclusão social, em que a paisagem árida e repetitiva traduz a miséria do retirante: “Somos muitos Severinos, / iguais em tudo na vida”. Carlos Drummond de Andrade, especialmente na coletânea A Rosa do Povo, associa a paisagem urbana à alienação e à angústia diante das tensões políticas e sociais, afirmando que a cidade é um mundo construído contra o homem. Já Graciliano Ramos, em Vidas Secas, transforma a caatinga num elemento opressor que molda as vidas dos personagens com brutalidade e resignação: “A paisagem era a mesma, seca e hostil”. Guimarães Rosa, por sua vez, em Grande Sertão: Veredas, eleva o sertão a um espaço simbólico de sabedoria, resistência e contradições humanas, afirmando que o sertão está em toda parte. Nessas obras, a paisagem não é apenas um pano de fundo, mas um elemento ativo na construção das tensões sociais, tornando-se território de denúncia, memória e resistência cultural.

Alencar (2007, 88) afirma que a narrativa oral e a paisagem se entrelaçam no processo de construção da identidade, onde a memória social é fundamental para resistir às forças que ameaçam a cultura local. Essa produção literária é uma forma de preservar memórias e identidades que resistem ao avanço das forças destrutivas da modernidade, da desigualdade e do desmatamento.

No âmbito das artes visuais, artistas contemporâneos têm criado obras que dialogam com o tema da paisagem em suas múltiplas dimensões. Vieira e Verdum (2017, 134) salientam que a estética da paisagem cênica, pitoresca e sublime nas artes visuais problematiza a relação entre homem e ambiente, mostrando ao mesmo tempo a beleza e a vulnerabilidade dos espaços naturais e culturais. Muitas vezes, essas obras apresentam representações que denunciam a degradação ambiental causada pelo modelo econômico predatório. Ao mesmo tempo, outras produções ressaltam a beleza e a força das paisagens vernaculares, valorizando a cultura local e os saberes tradicionais. A arte, assim, torna-se um espaço de contestação e ressignificação, onde a paisagem pode ser vista tanto como objeto de destruição quanto como símbolo de resistência.

Entretanto, nem todas as representações são politicamente engajadas ou críticas. Em muitos casos, a paisagem é idealizada de maneira romântica e esteticamente agradável, reforçando imagens idílicas de natureza intocada e harmônica. Silva (2019, 22) chama atenção para o direito à paisagem urbana como construção de uma geografia do olhar, onde a afetividade pode tanto valorizar quanto mascarar conflitos sociais presentes nos territórios. Essa visão despolitizada e simplificada pode ocultar os conflitos sociais, econômicos e ambientais que permeiam o território, contribuindo para a invisibilização das populações tradicionais e das disputas que afetam seus modos de vida. A representação da paisagem, portanto, é também um campo de disputa simbólica, onde diferentes narrativas e interesses entram em choque.

Analisar as estéticas da resistência e da destruição nas representações da paisagem em arte, literatura e audiovisual é fundamental para compreender como o imaginário coletivo é formado e mobilizado em torno dos territórios. Braga et al. (2024, 12) reforçam que as políticas da paisagem devem considerar as múltiplas vozes e sujeitos envolvidos na emergência climática, reconhecendo as tensões entre preservação, desenvolvimento e justiça ambiental. Essas representações não só revelam as percepções sobre o espaço vivido, mas também influenciam políticas culturais, ambientais e sociais. Elas podem servir como instrumentos poderosos para a conscientização, a sensibilização e a mobilização social, ao dar voz às comunidades afetadas e evidenciar as tensões presentes na relação entre homem e natureza.

Além disso, a arte e a literatura funcionam como registros históricos e culturais que documentam as transformações e resistências nas paisagens ao longo do tempo, contribuindo para a construção de memórias coletivas que ultrapassam o simples reconhecimento estético. Coelho (2009, 140) ressalta que a paisagem na fotografia revela os rastros da memória, permitindo a reconstrução de identidades e territorialidades ameaçadas pela homogeneização. Essa dimensão simbólica é essencial para que as comunidades possam reivindicar seus direitos ao território e à preservação de suas culturas frente às ameaças da destruição e da homogeneização.

Face a esses paradigmas, as representações da paisagem em suas múltiplas formas expressivas refletem as complexidades dos processos sociais que marcam a relação entre território, cultura e poder. As estéticas da resistência nos convidam a olhar para além da superfície, reconhecendo as histórias de luta e sobrevivência inscritas nos lugares, enquanto as estéticas da destruição denunciam as violências e perdas provocadas pela exploração desenfreada e pelo desrespeito ao patrimônio cultural e ambiental. De Souza e Ratts (2008, 150) apontam que espaço e representação são fundamentais para a compreensão das relações de raça e gênero, uma vez que moldam a vivência e a resistência das populações marginalizadas. Compreender essas dinâmicas é fundamental para fomentar um diálogo crítico e comprometido com a proteção dos territórios e a valorização das diversidades culturais que os habitam.

Governança, territorialidades e futuros possíveis

A paisagem, entendida como o resultado da interação contínua entre sociedade e natureza, é também um campo complexo de disputas políticas, culturais e econômicas. Essa complexidade exige que se pense em novas formas de governança que sejam capazes de reconhecer e integrar as múltiplas territorialidades presentes nos espaços em que vivemos. Como aponta Alvarenga (2015, 285), a paisagem revela, por meio de sua visualidade, os modos de apropriação e significação do espaço por parte dos diferentes grupos sociais, sendo, portanto, um lugar privilegiado para a compreensão das disputas territoriais. A construção de futuros mais justos e sustentáveis depende diretamente de abordagens que considerem essa diversidade e promovam a participação efetiva das comunidades na gestão dos seus territórios.

Governança, nesse contexto, vai além da simples administração pública tradicional. Trata-se de um processo que envolve diversos atores governamentais, comunitários, privados e do terceiro setor em diálogo e cooperação. Conforme afirma Sant’Anna et all. (2019, 823), ambientes propícios a uma participação social inclusiva são marcados pela multiplicidade de atores, interdependência, processo deliberativo inclusivo e busca pelo consenso. Esse modelo plural e descentralizado busca promover a gestão compartilhada dos recursos naturais e culturais, assegurando que as decisões sobre o uso e a preservação dos territórios sejam tomadas de forma inclusiva, transparente e legítima. A governança efetiva precisa reconhecer as especificidades locais, as histórias e os saberes tradicionais, valorizando as experiências das populações que, por vezes, foram historicamente marginalizadas. Segundo Pinto et all. (2018, 628), hierarquia e os controles centralizados deram lugar a princípios como flexibilidade, coordenação, participação cidadã e transparência administrativa.

As territorialidades múltiplas se manifestam na coexistência de diferentes formas de relação com o espaço, que podem ser culturais, sociais, econômicas ou simbólicas. Comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e populações tradicionais, por exemplo, estabelecem vínculos profundos e diversificados com seus territórios, baseados em práticas ancestrais, cosmologias e formas de subsistência que diferem dos modelos hegemônicos urbanos ou industriais. Como ressalta Mantelli, Bicalho e Siemons (2024, 63), os territórios indígenas são espaços onde se reproduzem modos de vida, formas de organização social e cosmologias próprias, que não podem ser reduzidos aos marcos jurídicos do Estado. Reconhecer essas territorialidades é fundamental para evitar conflitos e injustiças, bem como para construir políticas que respeitem os direitos desses grupos e preservem suas identidades.

A tensão entre essas diversas territorialidades e a governança convencional muitas vezes resulta em disputas por poder e controle sobre os territórios, especialmente em regiões ricas em recursos naturais ou com elevado potencial econômico. Projetos de desenvolvimento, mineração, agronegócio e infraestrutura frequentemente desconsideram os impactos sociais e ambientais sobre as comunidades locais, promovendo processos de exclusão e degradação ambiental. Svampa (2020) destaca que o avanço do neoextrativismo na América Latina tem provocado uma série de conflitos socioambientais, marcados por resistências locais e pela afirmação de direitos territoriais frente às lógicas predatórias do capital. Nesses casos, a ausência de uma governança plural e participativa agrava as desigualdades e ameaça a sustentabilidade dos ecossistemas e das culturas.

Para pensar em futuros possíveis que sejam mais justos, é necessário articular modelos de governança que incorporem a diversidade das territorialidades e promovam a corresponsabilidade na gestão territorial. Isso implica ampliar os espaços de participação social, fortalecer os conselhos comunitários, os movimentos sociais e as instituições que atuam na defesa dos direitos territoriais. Da Rosa e Fleury (2024, 65) argumentam que a justiça socioambiental exige o reconhecimento das desigualdades estruturais que afetam especialmente os povos e comunidades tradicionais, historicamente excluídos das decisões políticas. Políticas públicas integradas e intersetoriais também são essenciais para assegurar que as demandas ambientais, culturais e sociais sejam atendidas de maneira equilibrada.

Além disso, os futuros sustentáveis dependem de uma governança que dialogue com as incertezas e desafios contemporâneos, como as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e a crise dos recursos hídricos. Isso exige planejamento estratégico e adaptativo, capaz de incorporar o conhecimento científico e os saberes tradicionais, favorecendo soluções inovadoras que promovam a resiliência dos territórios e das populações. Assis (2023) enfatiza que as resistências locais à exploração predatória são também formas de produção de conhecimento e estratégias de governança ecológica, que articulam saberes ancestrais, justiça climática e direitos territoriais. A paisagem, assim, deixa de ser apenas um objeto de intervenção para se tornar um espaço de construção coletiva, onde diferentes agentes constroem conjuntamente suas trajetórias e perspectivas.

A educação ambiental e patrimonial também desempenha um papel crucial nesse processo, ao estimular a consciência crítica e o engajamento social em torno da preservação dos territórios e da valorização das diversidades culturais. Conforme observa Colerato et all. (2023), as perspectivas ecofeministas apontam para a necessidade de liberar a vida das lógicas destrutivas do capital, reconhecendo a interdependência entre humanos e não humanos, e valorizando formas alternativas de existência. Promover o diálogo intercultural e intergeracional é uma forma de fortalecer as territorialidades múltiplas e garantir a transmissão dos saberes que sustentam as práticas sustentáveis.

A governança que reconhece as múltiplas territorialidades abre caminho para a construção de futuros possíveis pautados na justiça socioambiental e no respeito à diversidade cultural. Essa perspectiva desafia modelos hegemônicos de desenvolvimento e propõe a construção coletiva de territórios que sejam sustentáveis, inclusivos e democráticos. A paisagem, portanto, é o palco dessas disputas e também o espaço onde se podem ensaiar novas formas de convivência entre pessoas e natureza, com vistas a um futuro que respeite as diferenças e promova o bem-estar coletivo. A paisagem é um dispositivo de leitura e intervenção no território, um meio pelo qual se articulam políticas, identidades e afetos.

Contra-cartografias e metodologias sensíveis na leitura da paisagem

As cartografias oficiais, historicamente produzidas por instituições estatais ou interesses econômicos, muitas vezes refletem os valores, prioridades e visões das classes dominantes, invisibilizando as territorialidades, os direitos e as narrativas das comunidades marginalizadas. Essas representações tradicionais do território tendem a naturalizar o controle sobre os espaços, legitimando a apropriação de terras e o estabelecimento de fronteiras que muitas vezes desconsideram as complexas relações socioculturais presentes na paisagem. Como argumenta Svampa (2020, p. 28), os conflitos territoriais, em sua maioria, são expressões de resistências contra formas de apropriação de recursos e territórios por atores hegemônicos, legitimadas por discursos desenvolvimentistas. Em consonância, Layrargues e Puggian (2018, 135) afirmam que a luta dos movimentos sociais por seus territórios tradicionais e por justiça socioambiental representa um confronto direto ao projeto hegemônico de desenvolvimento capitalista. Em contrapartida, as contra-cartografias surgem como instrumentos essenciais de resistência e de reapropriação do território, possibilitando que os sujeitos subalternizados expressem seus modos de viver, pensar e relacionar-se com o espaço.

As contra-cartografias são práticas cartográficas alternativas que desafiam o monopólio da produção cartográfica oficial. Elas podem assumir formas diversas, desde mapas desenhados à mão, registros orais e visuais, até o uso de tecnologias digitais como o georreferenciamento e sistemas de informações geográficas (SIG). O que caracteriza essas metodologias é a centralidade das experiências, saberes e percepções locais na construção dos mapas, oferecendo uma visão mais plural, subjetiva e crítica do território. Segundo Assis (2024, e025013), as cartografias insurgentes não apenas contestam o monopólio do Estado sobre a representação espacial, mas também constroem narrativas alternativas que valorizam os modos de vida tradicionais e a defesa dos bens comuns. Já Domingues (2021, p. 15) aponta que as cartografias contra-hegemônicas fazem emergir geografias que, embora silenciadas, resistem por meio da sua inscrição simbólica nos territórios. Dessa forma, as contra-cartografias não se limitam a representar a dimensão física da paisagem, mas também as suas múltiplas significações culturais, sociais e políticas.

Na Amazônia, por exemplo, povos indígenas e comunidades tradicionais têm se apropriado dessas metodologias para demarcar suas terras, documentar ameaças e fortalecer a luta por seus direitos territoriais. Mapas produzidos por essas comunidades, frequentemente elaborados com a participação coletiva, combinam saberes ancestrais com recursos tecnológicos para identificar áreas de floresta preservada, locais sagrados, rotas de caça e pesca, bem como as regiões afetadas pelo desmatamento ilegal, garimpo e invasões por grileiros. Zhourí e Laschefski (2024, 57) explicam que esses mapas, além de instrumentos técnicos, são artefatos políticos que expressam a resistência frente à desterritorialização e à violência ambiental. Complementarmente, Mantelli et all. (2024, 65) destacam que as práticas cartográficas desenvolvidas por povos indígenas revelam as estratégias de proteção ambiental articuladas a partir do próprio território e de suas cosmologias. Esses mapas funcionam como provas documentais importantes em disputas jurídicas e também como ferramentas de mobilização política e ambiental, dando visibilidade às realidades locais que são muitas vezes ocultadas nas cartografias oficiais.

Além da Amazônia, diversas experiências ao redor do mundo demonstram como as contra-cartografias contribuem para uma leitura mais sensível e inclusiva da paisagem. Em contextos urbanos, por exemplo, grupos marginalizados utilizam mapas críticos para denunciar processos de gentrificação, exclusão social e desigualdade territorial. Tais mapas apontam as zonas de vulnerabilidade, as áreas de resistência cultural e as dinâmicas socioespaciais que escapam às estatísticas convencionais, promovendo o reconhecimento e a valorização dos territórios subalternos. Como afirmam De Jesus (2023, 328), a interseccionalidade na cartografia urbana crítica revela as múltiplas opressões vividas nos territórios periféricos, destacando raça, gênero e classe como categorias geográficas. De Souza e Ratts (2008, 150) também ressaltam que a geografia crítica deve considerar as espacialidades racializadas e generificadas como elementos centrais da análise territorial.

As metodologias sensíveis incorporam ainda a subjetividade e a memória como dimensões fundamentais da leitura da paisagem. Isso implica reconhecer que a paisagem é um espaço vivido, carregado de afetos, histórias, disputas e práticas que transcendem a mera materialidade do lugar. Os mapas então passam a dialogar com narrativas orais, fotografias, testemunhos e outras formas de registro que capturam as múltiplas camadas de significado presentes no território. Alencar (2007, 6) observa que a memória social é constitutiva da paisagem, e sua expressão simbólica reflete processos identitários que reforçam o vínculo comunitário com o espaço. Do mesmo modo, Ferreira (2016, 8) aponta que as imagens fotográficas de casas em ruínas se tornam documentos sensíveis das ausências e permanências que moldam a paisagem urbana. Essa abordagem amplia o entendimento sobre as relações de poder que se manifestam não apenas na ocupação física do espaço, mas também na produção simbólica da paisagem.

Outro aspecto importante das contra-cartografias é a sua capacidade de promover o empoderamento das comunidades, ao fortalecer sua autonomia na representação e gestão do território. O processo coletivo de mapeamento cria espaços de diálogo, reflexão e fortalecimento identitário, contribuindo para a articulação política e para a construção de estratégias de defesa territorial. Essa participação ativa contrasta com as abordagens top-down das cartografias oficiais, que muitas vezes impõem representações externas e descontextualizadas, reforçando desigualdades e injustiças. De acordo com Colerato et all. (2023, 19), o mapeamento coletivo não apenas registra espacialidades alternativas, mas também ativa afetos, memórias e formas de cuidado com o território. Já Schvarsberg et all. (2024, 12) enfatizam que as mobilidades pós-antropocênicas reconfiguram a paisagem como campo de disputa e especulação política, operando em sintonia com práticas contra-cartográficas.

Contudo, as contra-cartografias também enfrentam desafios. A validação legal dessas representações alternativas, a segurança das comunidades envolvidas, especialmente em áreas de conflito, e o acesso às tecnologias necessárias são questões que demandam atenção e suporte institucional. Além disso, é fundamental que essas iniciativas mantenham sua autonomia e não sejam cooptadas por interesses externos que possam desvirtuar seus propósitos originais. Segundo Rosa e Fleury (2024, 66), a justiça socioambiental exige o reconhecimento das epistemologias locais e a garantia de mecanismos que viabilizem a autonomia dos povos frente às pressões institucionais. Alvarenga (2015, 285) complementa ao afirmar que a justiça territorial requer uma escuta atenta das paisagens vivenciadas, sentidas e narradas pelos sujeitos que habitam os territórios em disputa.

Em síntese, as contra-cartografias e metodologias sensíveis são ferramentas poderosas para uma leitura crítica e inclusiva da paisagem. Elas revelam as tensões e desigualdades presentes nas representações cartográficas tradicionais e ampliam a compreensão sobre as múltiplas territorialidades que compõem o território. Ao valorizar os saberes locais, as experiências vividas e as narrativas marginalizadas, essas práticas contribuem para a democratização do conhecimento territorial e para a construção de sociedades mais justas e respeitosas das diversidades culturais e ambientais. Como sintetiza Bertrand et al. (1972, 34), a paisagem é uma expressão da organização do espaço que traduz a relação entre sociedade e natureza em sua totalidade. Complementarmente, Braga et all. (2024) assinalam que as políticas da paisagem devem ser compreendidas a partir dos sujeitos e conflitos que emergem na era da emergência climática, ressignificando o papel do território no enfrentamento das crises.

Ecologia política e justiça ambiental: contribuições dos estudos históricos e culturais

A Ecologia Política emerge como um campo interdisciplinar fundamental para compreender as profundas desigualdades ambientais que permeiam as sociedades contemporâneas. Mais do que uma análise meramente ecológica, essa abordagem propõe um exame crítico das relações de poder que determinam a distribuição desigual dos recursos naturais, dos riscos ambientais e dos benefícios socioambientais. Ao incorporar os estudos históricos e culturais, a Ecologia Política amplia sua capacidade explicativa, desvelando como as paisagens naturais e sociais foram moldadas ao longo do tempo por processos que envolvem colonização, exploração econômica e hierarquias sociais.

Segundo De Souza e Milanez (2016, 4), as desigualdades ambientais não resultam de uma ausência de regulação ou planejamento, mas são parte constitutiva das dinâmicas de poder que moldam a relação entre sociedade e meio ambiente. Essa afirmação corrobora a perspectiva de que os problemas socioambientais estão enraizados nas estruturas históricas de dominação e exclusão.

A integração dos estudos históricos permite compreender que as desigualdades ambientais não são acidentais ou naturais, mas resultado de dinâmicas complexas e históricas. Um exemplo paradigmático é o ciclo da borracha na Amazônia, ocorrido entre o final do século XIX e início do século XX, que evidencia claramente essa interseção entre meio ambiente, economia e relações sociais. A extração intensiva da borracha para atender às demandas do mercado global transformou radicalmente a paisagem amazônica, ao mesmo tempo em que perpetuou a exploração e a escravização de populações indígenas e seringueiros. A floresta foi convertida em fonte de capital, desconsiderando as práticas tradicionais de manejo sustentável e o bem-estar das comunidades locais.

De acordo com Oliveira, Zhouri e Dumpty (2005), os projetos de desenvolvimento que se baseiam na lógica da grande obra desconsideram os modos de vida locais, provocando a desterritorialização e gerando conflitos socioambientais em larga escala. Esse processo histórico revela como a lógica do capital impõe uma relação instrumental e predatória com a natureza, subjugando as territorialidades e os saberes tradicionais.

As comunidades indígenas, muitas vezes invisibilizadas nas narrativas oficiais, foram vítimas de violência física, cultural e ambiental, com impactos que reverberam até hoje. A degradação ambiental, acompanhada da perda da biodiversidade e da contaminação dos recursos naturais, é uma herança desse modelo de desenvolvimento excludente, que prioriza o lucro em detrimento da justiça social e ecológica.

Ao incorporar os estudos culturais, a Ecologia Política também enfatiza a importância das práticas, valores e cosmovisões das populações afetadas. Entender como diferentes grupos percebem, valorizam e interagem com o meio ambiente é essencial para identificar as injustiças ambientais que ultrapassam o campo material, alcançando dimensões simbólicas e identitárias. Segundo Almeida (2020), o reconhecimento do território tradicional como condição de justiça ambiental é essencial para garantir os direitos culturais e materiais das comunidades quilombolas e outros povos tradicionais.

A cultura, portanto, é um elemento-chave para a construção da justiça ambiental, pois as lutas por reconhecimento e autonomia cultural estão diretamente relacionadas às disputas pelo território e pelo direito a um ambiente saudável.

Essa perspectiva crítica sobre a história e a cultura ambiental reforça a necessidade de uma abordagem integral para enfrentar os desafios contemporâneos da crise socioambiental. Layrargues e Puggian (2018, 132) defendem que a educação ambiental crítica, articulada aos movimentos sociais, é fundamental para resistir à lógica destrutiva do desenvolvimentismo capitalista e construir alternativas sustentáveis baseadas na justiça socioambiental.

As políticas públicas e os movimentos sociais voltados para a justiça ambiental devem considerar não apenas as condições atuais, mas também as trajetórias históricas que configuraram as desigualdades presentes. Reconhecer que a distribuição dos riscos ambientais como poluição, desmatamento, contaminação e desastres naturais não é neutra, mas produto de relações de poder historicamente construídas, é fundamental para garantir reparações efetivas e transformações estruturais.

Nesse sentido, a Ecologia Política contribui para a construção de futuros mais justos e sustentáveis ao evidenciar os processos históricos que precisam ser superados. Como afirmam Braga et all. (2024), as políticas da paisagem devem considerar a pluralidade dos sujeitos e as relações de poder que conformam os territórios diante da emergência climática.

Ela aponta para a importância de fortalecer a participação e a voz das comunidades afetadas nas decisões sobre o uso e a proteção dos recursos naturais. Além disso, enfatiza a urgência de políticas que promovam a redistribuição equitativa dos benefícios e riscos ambientais, respeitando a diversidade cultural e os direitos territoriais dos povos tradicionais.

A análise histórica do ciclo da borracha, por exemplo, serve como alerta sobre os perigos de repetir modelos de desenvolvimento extrativistas e predatórios que ignoram os impactos sociais e ambientais. Ao mesmo tempo, inspira a valorização dos conhecimentos tradicionais e das práticas sustentáveis que essas comunidades preservam. Zhouri, Laschefski e Pereira (2024) destacam que sem o reconhecimento dos conflitos socioambientais como expressão das contradições estruturais do desenvolvimento, as políticas ambientais se tornam meras ferramentas de gestão da crise, e não de transformação social.

Esse diálogo entre ciência, história e cultura é fundamental para redefinir as formas de relação com a natureza, promovendo a justiça ambiental como um componente inseparável da justiça social.

Contudo, a Ecologia Política, ao dialogar com os estudos históricos e culturais, oferece ferramentas essenciais para compreender as raízes das desigualdades ambientais e para orientar ações que visem a construção de um mundo mais equitativo. Reconhecer as injustiças ambientais como um fenômeno histórico e culturalmente situado é um passo decisivo para que a justiça ambiental deixe de ser apenas um ideal e se torne uma realidade concreta, assegurando que os territórios e as paisagens sejam espaços de vida dos de vida digna para todas as pessoas.

Territorialidades indígenas, quilombolas e camponesas e suas relações com a paisagem como espaço de memória, identidade e resistência

As territorialidades indígenas, quilombolas e camponesas representam formas singulares e essenciais de relação com a paisagem, que se contrapõem aos modelos hegemônicos de apropriação e exploração do território. Fundamentadas em saberes ancestrais, práticas comunitárias e princípios de reciprocidade, essas territorialidades revelam uma profunda conexão entre os povos e seus territórios, nos quais a paisagem é compreendida não apenas como um recurso natural, mas como um espaço carregado de memória, identidade e resistência. Como destacam De Souza e Milanez (2016, 4), as populações tradicionais, ao construírem suas territorialidades, inserem seus modos de vida e seus saberes no espaço, atribuindo-lhe sentidos e valores que se contrapõem à lógica dominante de exploração e mercantilização da natureza.

Para esses povos, a paisagem incorpora a história de suas origens, as relações sociais e espirituais que sustentam suas comunidades, bem como as práticas culturais que garantem a reprodução da vida em harmonia com o meio ambiente. Essa visão holística valoriza a diversidade biológica e cultural, reconhecendo que a saúde dos ecossistemas está intrinsecamente ligada à manutenção dos modos de vida tradicionais. Zhouri, Laschefski e Pereira (2024) ressaltam que os conflitos socioambientais revelam disputas entre projetos de sociedade antagônicos, com distintas visões de mundo e formas de se relacionar com a natureza.

A paisagem, portanto, é um espaço vivo, dinâmico e plural, onde se manifestam as cosmovisões e as lutas por autonomia e reconhecimento. Nesse sentido, Layrargues e Puggian (2018, 145) observam que a luta em defesa do território é, também, uma luta por memória, identidade, ancestralidade e permanência cultural. Não se trata apenas de um espaço físico, mas de um espaço simbólico, onde a vida se realiza em sua plenitude.

No Brasil, a luta pela demarcação das terras indígenas e quilombolas é um exemplo emblemático dessa resistência territorial. Svampa (2020, 53) afirma que o neoextrativismo impõe às comunidades locais um modelo de desenvolvimento que as expulsa de seus territórios e desestrutura suas formas tradicionais de vida, em nome de um progresso que as exclui. Esses processos enfrentam constantemente a pressão do agronegócio, da mineração, do avanço das fronteiras agrícolas e de políticas públicas que privilegiam interesses econômicos em detrimento dos direitos territoriais dos povos tradicionais.

A transformação dessas paisagens em commodities, produtos comercializáveis no mercado global, ameaça não apenas a integridade ambiental, mas também a sobrevivência cultural dessas comunidades, que veem em seus territórios a base material e simbólica de sua existência. Como salienta Almeida (2020), o território tradicional é condição fundamental para a justiça e a sobrevivência cultural das comunidades quilombolas, sendo ele o lugar onde se enraízam suas práticas, saberes e formas de existência. Os territórios camponeses, por sua vez, também apresentam territorialidades baseadas na convivência sustentável com a terra, na agroecologia e na produção familiar, que desafiam os modelos industriais e concentradores de terra. Assis (2024) explica que as práticas camponesas são formas de resistência histórica que articulam saberes ancestrais e ações contemporâneas diante das ameaças climáticas e socioambientais.

Essas comunidades cultivam a terra respeitando os ciclos naturais e as relações de cooperação comunitária, preservando práticas que garantem a biodiversidade e a segurança alimentar. A paisagem camponesa é, assim, um espaço de resistência contra a homogeneização produtiva e a concentração fundiária que marcam o agronegócio contemporâneo. Segundo Braga et all. (2024), as paisagens camponesas expressam outras racionalidades produtivas e ecológicas, que resistem à lógica mercantil e à devastação ambiental imposta pelo agronegócio.

Reconhecer e proteger essas territorialidades é fundamental para assegurar os direitos sociais, culturais e ambientais dessas populações, conforme previsto na Constituição Federal e em tratados internacionais de direitos humanos. Como argumenta Mantelli et all. (2024, 70), o reconhecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas e tradicionais é elemento estruturante para enfrentar a crise climática e promover justiça socioambiental. Além disso, essa proteção é crucial para a construção de modelos de desenvolvimento mais justos e ecologicamente equilibrados, que valorizem a diversidade cultural e biológica do país.

Ao respeitar as territorialidades indígenas, quilombolas e camponesas, abre-se caminho para alternativas que promovam a justiça social e ambiental, a soberania alimentar e o fortalecimento das comunidades locais. Zhouri, Oliveira e Dumpty (2005) destacam que a desterritorialização promovida pelos grandes empreendimentos representa uma forma de violência simbólica, pois desestrutura os vínculos culturais, sociais e espirituais construídos historicamente com o território. A preservação dessas territorialidades implica o reconhecimento do território não apenas como espaço físico, mas como espaço simbólico e político.

As práticas culturais, as festas, as línguas, os saberes tradicionais e os modos de organização social estão inscritos na paisagem e contribuem para a afirmação da identidade desses povos. Nesse sentido, a paisagem torna-se um campo de disputa, onde se enfrentam diferentes visões sobre o uso e o significado do território. Como aponta Calmon (2021, 47), restaurar paisagens não é apenas plantar árvores, mas reconhecer as múltiplas dimensões culturais, sociais e políticas dos territórios e suas gentes.

A resistência desses povos passa também pela construção de narrativas próprias e pela valorização dos seus conhecimentos tradicionais, que são fundamentais para a gestão sustentável dos recursos naturais. Muitas comunidades indígenas e quilombolas têm sido protagonistas na conservação da biodiversidade e na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, reafirmando que seus saberes são centrais para a sustentabilidade global. Para Colerato et all. (2023), é preciso romper com a racionalidade produtivista dominante e construir uma nova ética da vida, baseada em saberes locais, cuidado e reciprocidade entre seres humanos e a natureza.

Por fim, a relação entre territorialidades e paisagem como espaço de memória, identidade e resistência reforça a necessidade de políticas públicas participativas e interculturais, que respeitem a autonomia desses povos e promovam a justiça territorial. A valorização dessas territorialidades é um passo essencial para a construção de uma sociedade plural, democrática e sustentável, na qual a diversidade cultural e ambiental sejam reconhecidas como riquezas a serem preservadas e celebradas. A justiça socioambiental só será possível quando os territórios forem compreendidos a partir das experiências e sentimentos vividos por seus habitantes, e não apenas pela lógica técnica ou legal.

Cidade, memória e disputa: leituras críticas da paisagem urbana histórica

A paisagem urbana histórica representa um espaço fundamental onde se entrelaçam memórias coletivas, identidades culturais e relações de poder. Diferente de um simples cenário físico, essa paisagem é palco de disputas simbólicas e materiais, que refletem as tensões sociais e econômicas que atravessam a cidade. Como observa Eckert (2008, 5), as paisagens urbanas contêm camadas de sentidos e rastros de práticas sociais, compondo uma cartografia de memórias que se impõem e se apagam em disputa. A paisagem urbana histórica abriga as marcas do passado, as experiências das populações que nela vivem e as múltiplas narrativas que se constroem e se confrontam em seu tecido social.

No contexto das grandes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro, o centro histórico é um exemplo emblemático dessas disputas. Essa região, rica em patrimônio arquitetônico e memória social, tem sido objeto de projetos de revitalização que, em muitos casos, reproduzem dinâmicas excludentes. Segundo Layrargues e Puggian (2018, 134), a lógica de desenvolvimento dominante imposta por políticas públicas em nome da modernização pode conduzir à expropriação simbólica e física de territórios de populações tradicionais. A gentrificação, impulsionada pela especulação imobiliária e pela turistificação, tem transformado a paisagem urbana, elevando o valor dos imóveis e tornando inviável a permanência das populações tradicionais, em sua maioria de baixa renda.

Esses processos, embora promovam a recuperação de edificações e a atração de investimentos, resultam frequentemente na descaracterização cultural e social da área. As memórias das classes populares, que por décadas habitaram e construíram aquele espaço, são apagadas ou relegadas a segundo plano, enquanto a cidade passa a ser tratada como um produto a ser consumido, principalmente pelo turismo e pelo mercado imobiliário. Como alertam Oliveira, Zhouri e Dumpty (2005, 7), a estetização da paisagem urbana frequentemente serve para encobrir os conflitos sociais subjacentes, legitimando políticas de exclusão. Assim, a paisagem urbana histórica corre o risco de se tornar um cenário estético desprovido de suas histórias e dos sujeitos que a tornaram viva.

A fragmentação social que decorre dessas transformações reflete uma violência simbólica e material contra os moradores originais, que são deslocados ou marginalizados. A perda da identidade local não é apenas uma questão estética, mas um impacto profundo na coesão comunitária e na continuidade das práticas culturais. Como afirma Edna Alencar (2007), a memória coletiva está entranhada na paisagem vivida, sendo sua desconstrução um rompimento com a identidade social de um povo. A cidade deixa de ser um espaço de convivência e pertencimento para se transformar em um ambiente segmentado, onde os interesses econômicos dominam as decisões sobre o uso do território.

Diante desse cenário, a leitura crítica da paisagem urbana histórica torna-se indispensável para desvelar as narrativas dominantes que orientam os projetos urbanos e suas consequências sociais. É preciso ir além das fachadas restauradas e do discurso oficial de revitalização, para identificar os silêncios e as resistências que permeiam esses espaços. Como destacam Zhouri, Laschefski e Pereira (2024), a política ambiental dominante oculta os conflitos, naturalizando o desenvolvimento como um processo neutro e inevitável. A cidade, enquanto espaço social, é palco de disputas constantes entre diferentes grupos que buscam afirmar suas memórias, seus direitos e suas visões de mundo.

Essas disputas se manifestam em manifestações culturais, movimentos sociais, intervenções artísticas e resistências cotidianas que buscam preservar a memória e a identidade locais. As vozes das comunidades tradicionais e dos moradores de longa data desafiam o projeto hegemônico que tenta homogeneizar e mercantilizar a paisagem urbana. Como ressalta Mantelli et all. (2024, 63), os territórios em disputa expressam não apenas conflitos fundiários, mas também embates simbólicos sobre pertencimento e memória. É nesse campo de conflito que a cidade se revela como um livro aberto, cujas páginas são escritas e reescritas por múltiplos atores sociais, em um processo dinâmico e contínuo de construção de sentido.

A compreensão crítica da paisagem urbana histórica também implica reconhecer a cidade como um espaço de memória plural, onde diversas histórias coexistem e se entrelaçam. O patrimônio cultural não deve ser entendido apenas como bens materiais, mas como um conjunto de práticas, saberes e narrativas que refletem a diversidade social. Segundo Vieira e Verdum (2017, 136), a paisagem cênica é carregada de estéticas e significados que escapam ao olhar técnico, revelando experiências afetivas e históricas. Políticas públicas de preservação e desenvolvimento urbano precisam incorporar essa pluralidade, promovendo a participação democrática das comunidades nas decisões sobre o futuro dos seus territórios.

Por fim, a cidade histórica deve ser vista como um espaço vivo, que demanda cuidados que respeitem a complexidade social e cultural nela presente. Evitar a homogeneização e a exclusão social requer estratégias que conciliem a valorização do patrimônio com a garantia dos direitos das populações locais, promovendo a justiça social e a sustentabilidade urbana. A paisagem é um campo de disputa onde diferentes sujeitos e sentidos se entrelaçam em busca de reconhecimento, justiça e permanência. Só assim será possível construir cidades inclusivas, nas quais a memória e a identidade sejam preservadas e celebradas como elementos centrais da vida urbana.

Discussão

A análise desenvolvida neste artigo reforça a compreensão da paisagem como um campo multifacetado e dinâmico, atravessado por relações de poder que estão profundamente enraizadas nas dimensões sociais, econômicas e ambientais. Os dados e exemplos aqui discutidos, que vão desde a intensificação das disputas territoriais em contextos marcados pela crise climática até os processos de gentrificação em centros históricos urbanos, evidenciam a necessidade urgente de abordagens que transcendam perspectivas meramente técnicas ou estéticas. A paisagem, enquanto espaço vivido e construído socialmente, revela as interseccionalidades das opressões que incidem sobre grupos racializados, populações de baixa renda e comunidades tradicionais, configurando a negação reiterada do direito à paisagem e à permanência em seus territórios.

A mercantilização crescente da natureza e a erosão dos vínculos comunitários aparecem como fenômenos interligados que fragilizam a capacidade de resistência das comunidades diante das pressões econômicas e políticas externas. Nesse sentido, a valorização das paisagens vernaculares, aquelas produzidas a partir dos saberes, práticas e modos de vida locais e a proteção das territorialidades indígenas, quilombolas e camponesas emergem não apenas como ações de salvaguarda cultural e ambiental, mas também como estratégias políticas e sociais fundamentais para a construção de modelos de desenvolvimento alternativos, mais justos e sustentáveis. Essas territorialidades carregam em si saberes ancestrais e formas de interação com o ambiente que representam resistências históricas e oferecem perspectivas essenciais para o enfrentamento das crises contemporâneas.

As contra-cartografias e as metodologias sensíveis desempenham um papel crucial nesse cenário, funcionando como instrumentos de empoderamento e de visibilidade para grupos historicamente marginalizados e silenciados nas representações oficiais do território. Ao incorporar saberes locais, percepções subjetivas e narrativas plurais, essas práticas subvertem as cartografias hegemônicas, que tendem a ocultar conflitos, injustiças e a diversidade cultural presente na paisagem. Dessa forma, elas contribuem para a democratização do conhecimento territorial e para a ampliação do debate público acerca dos direitos e das disputas em torno dos espaços.

A Ecologia Política e os estudos sobre Justiça Ambiental oferecem arcabouços teóricos imprescindíveis para compreender as raízes históricas e estruturais das desigualdades ambientais que marcam os processos de apropriação e transformação do território. Esses campos permitem analisar como as relações de poder moldam a distribuição dos riscos e benefícios ambientais, destacando que tais processos não são neutros, mas sim produtos de contextos históricos que envolvem colonização, exploração e exclusão social. A leitura histórica, nesse sentido, é fundamental para compreender os impactos atuais e pensar em políticas e práticas que busquem a reparação e a equidade socioambiental.

Por fim, a reflexão sobre as estéticas da resistência e da destruição evidencia o papel vital da arte, da literatura e do audiovisual na construção e contestação das narrativas sobre a paisagem. Essas formas culturais são poderosos veículos para expressar experiências de opressão e luta, além de funcionarem como fontes de inspiração para a mobilização social e para a transformação das realidades locais. A arte, ao tornar visíveis as tensões e os conflitos que marcam os territórios, possibilita um diálogo crítico que ultrapassa as fronteiras do espaço físico e alcança dimensões simbólicas e emocionais essenciais para a compreensão do território como um espaço político.

Em suma, esta análise reafirma que a paisagem é um campo de disputa contínua, onde se inscrevem memórias, identidades e resistências. A superação das desigualdades territoriais requer abordagens integradas, que reconheçam a pluralidade de territorialidades e promovam a participação ativa das comunidades na definição dos rumos de seus territórios. Só assim será possível avançar na construção de futuros mais justos, democráticos e ambientalmente sustentáveis.

Considerações finais

A paisagem, em sua complexa e indissociável relação com o território e o poder, revela-se como um constructo histórico, social e político que ultrapassa os limites da estética ou da geografia física. Ela constitui um campo de disputa onde se entrelaçam saberes, memórias, afetos e projetos de mundo. Em tempos de múltiplas crises climática, humanitária, econômica e epistêmica, torna-se cada vez mais necessário aprofundar abordagens críticas e interdisciplinares sobre a paisagem, compreendendo-a como um espaço dinâmico de produção de sentido e resistência.

As territorialidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas e periféricas não apenas constroem paisagens, mas também as reivindicam como lugares de pertencimento, espiritualidade e ancestralidade. Tais paisagens não são neutras nem homogêneas: são moldadas por histórias de violência e resistência, de apagamentos e reemergências. Ao contrário das perspectivas hegemônicas de apropriação mercantil do território, que transformam a paisagem em commodity, seja para fins turísticos, agroindustriais ou minerários, as territorialidades tradicionais operam a partir de uma lógica contra-hegemônica, fundada na reciprocidade, na oralidade, na coletividade e na sustentabilidade.

Nesse contexto, as ciências humanas, sociais e ambientais têm o desafio ético e político de tensionar os discursos dominantes que instrumentalizam a paisagem como um artefato desprovido de historicidade. É preciso reconhecer o papel da paisagem como marcador identitário e campo de disputa simbólica. A valorização das territorialidades tradicionais e o combate às epistemologias coloniais que invisibilizam suas narrativas constituem passos fundamentais para a construção de modelos de desenvolvimento verdadeiramente plurais e socialmente justos.

Responder criticamente às questões levantadas neste trabalho implica ampliar o escopo analítico da paisagem para além da materialidade visível. Por exemplo, as juventudes periféricas constroem paisagens urbanas marcadas por grafites, sonoridades, festividades e religiosidades que ressignificam os espaços de exclusão e violência. Essas juventudes imprimem resistência nas ruas, nos muros, nas práticas culturais e no corpo-território. Portanto, compreender suas dinâmicas espaciais é também reconhecer suas formas legítimas de produção de conhecimento e de reinvenção do urbano.

As espiritualidades afro-indígenas, por sua vez, territorializam o sagrado em terreiros, rios, árvores e morros. Esses elementos da paisagem são dotados de vida e agência, constituindo cosmologias que rompem com a dicotomia natureza/cultura imposta pela modernidade ocidental. A paisagem, nesse contexto, não é cenário, mas sujeito. Proteger esses espaços é preservar não apenas o ambiente físico, mas também o repertório simbólico e cosmológico de comunidades historicamente oprimidas.

Já os processos migratórios contemporâneos provocam reorganizações identitárias que afetam profundamente a relação com o território. A diáspora, o exílio e o deslocamento forçado recriam paisagens afetivas, onde a memória se ancora em objetos, rituais e narrativas que conectam o passado ao presente, o local ao global. Tais processos exigem análises que incorporem os estudos da mobilidade, da memória e das redes transnacionais para compreender como os sujeitos ressignificam espaços diante da ruptura com o território de origem.

Outro aspecto emergente é o papel das tecnologias digitais e da inteligência artificial na mediação do espaço. A cartografia participativa, as plataformas de mapeamento colaborativo e os algoritmos de geolocalização moldam novas paisagens tanto materiais quanto simbólicas que interferem na forma como os sujeitos percebem, habitam e disputam os territórios. Ao mesmo tempo, tais tecnologias também podem ser utilizadas como instrumentos de vigilância e controle, reiterando lógicas coloniais de apropriação espacial. Isso impõe um debate ético sobre os usos sociais da tecnologia e seus impactos na configuração dos territórios.

Diante dessas múltiplas dimensões, urge transformar as reflexões acadêmicas em políticas públicas efetivas que assegurem o direito à paisagem como um direito humano, coletivo e intergeracional. Isso implica formular políticas territoriais baseadas na justiça ambiental, na equidade de gênero e raça, na soberania alimentar e na democracia participativa. Reforça-se, assim, o papel da educação ambiental crítica, da arte como prática insurgente e da agroecologia como paradigma de recomposição dos vínculos entre pessoas, culturas e ecossistemas.

Conclui-se que a paisagem, longe de ser apenas uma moldura estática do espaço vivido, é um campo dinâmico e conflituoso, onde se expressam disputas por reconhecimento, pertencimento e justiça. A compreensão crítica da paisagem requer não apenas a valorização das territorialidades subalternizadas, mas também a desnaturalização das práticas hegemônicas que silenciam memórias, esvaziam identidades e instrumentalizam o território em nome do progresso. Nesse contexto, o direito à paisagem deve ser entendido como um direito fundamental, que articula dimensões ambientais, culturais, simbólicas e políticas, exigindo a formulação de políticas públicas que reconheçam sua complexidade e assegurem a participação ativa das comunidades nos processos decisórios.

Diante dos desafios contemporâneos das mudanças climáticas ao avanço da especulação urbana, da invisibilização das culturas tradicionais à padronização global das experiências territoriais, torna-se urgente o engajamento de pesquisadores, educadores, gestores e movimentos sociais em práticas interdisciplinares e transformadoras. A construção de futuros mais equitativos e sustentáveis passa, necessariamente, pela escuta sensível das múltiplas vozes que habitam e produzem as paisagens. Ao reposicionar a paisagem como espaço de resistência, de memória e de criação coletiva, pavimenta-se o caminho para a construção de um mundo mais justo, plural e solidário.

Referências bibliográficas

ALENCAR, Edna. Paisagens da memória: narrativa oral, paisagem e memória social no processo de construção da identidade. Teoria e Pesquisa Revista de Ciência Política, v. 16, n. 2, 2007.

ALMEIDA, Jeliane Pacheco de. O território tradicional como condição de justiça para as comunidades quilombolas: uma análise a partir de conflitos socioambientais na RMS-Bahia. 2020.

ALMEIDA, Vitória Gomes et al. Patrimônios e matrimônios: intersecções entre (de) colonialidades, raça, gênero e memória. 2021.

ALVARENGA, Luciano J. Para além dos lugares-comuns no ambiente e no Direito do Ambiente: revelações das paisagens vivenciadas e sentidas para uma visão integrada da justiça socioambiental. Colóquio Internacional Epistemologias do Sul: aprendizagens globais Sul-Sul, Sul-Norte e Norte-Sul, p. 285, 2015.

ANDRADE, Catarina. Corpos e paisagens: Construção de memória e identidade em imagens e narrativas do cinema de Claire Denis e Abdellatif Kechiche. 2016.

ASSIS, Lucas Lenin Resende. Neoextrativismo, crise climática e resistências na Amazônia: interseções entre história, ecologia e governança. Revista Aurora, v. 18, p. e025013-e025013.

BERTRAND, Georges et al. Paisagem e geografia física global: esboço metodológico. São Paulo: USP, 1972.

BRAGA, Gabriel Luiz Santos et al. Políticas da paisagem: questões e sujeitos para uma compreensão da emergência climática no Brasil. 2024.

BRAGA, Gabriel Luiz Santos et al. Políticas da paisagem: questões e sujeitos para uma compreensão da emergência climática no Brasil. 2024.

CALMON, Miguel. Restauração de florestas e paisagens em larga escala: o Brasil na liderança global. Ciência e Cultura, v. 73, n. 1, p. 44-48, 2021.

COELHO, Letícia Castilhos. A paisagem na fotografia, os rastros da memória nas imagens. gpit: Grupo de Pesquisa Identidade e Território, 2009.

COLERATO, Marina Penido et al. Crise climática e antropoceno: perspectivas ecofeministas para liberar a vida. 2023.

DA ROSA, Luana Silva; FLEURY, Lorena Cândido. Justiça socioambiental e crise climática: a quem o convés da justiça foi negado? Campos Neutrais-Revista Latino-Americana de Relações Internacionais, v. 6, n. 2, p. 57-75, 2024.

DE ANDRADE JÚNIOR, José Roberto Porto. A importância dos conceitos de “paisagem” para o ambientalismo brasileiro. Paisagem e Ambiente, v. 35, n. 53, p. e209632-e209632, 2024.

DE JESUS, Likem Edson Silva. Direito à cidade e interseccionalidade. Diké-Revista Jurídica, v. 22, n. 22, p. 319-344, 2023.

DE OLIVEIRA SANTOS, Everson; DE ALMEIDA, Ricardo Santos; DE OLIVEIRA, Matteus Freitas. Território, Poder e Questões Socioambientais no Campo e na Cidade.

DE SOUZA, Leandro Ricarte Castro; MILANEZ, Bruno. Conflitos socioambientais, ecologia política e justiça ambiental: contribuições para uma análise crítica. Perspectiva Geográfica, v. 11, n. 14, p. 2-12, 2016.

DE SOUZA, Lorena Francisco; RATTS, Alecsandro JP. Raça e gênero sob uma perspectiva geográfica: espaço e representação. Boletim Goiano de Geografia, v. 28, n. 1, p. 144-156, 2008.

DOMINGUES, Álvaro. Paisagens transgénicas. Finisterra, v. 56, n. 118, p. 9-24, 2021.

ECKERT, Cornelia. As variações” paisageiras” na cidade e os jogos da memória. Iluminuras: série de publicações eletrônicas do Banco de Imagens e Efeitos Visuais, LAS, PPGAS, IFCH e ILEA, UFRGS. Porto Alegre, RS. N. 20 (2008), 12 p., 2008.

FERREIRA, Beatriz Rodrigues. Memória e esquecimento: a utilização da fotografia na pesquisa e a narratização da paisagem urbana a partir e suas casas em ruínas [em linha].

LAYRARGUES, Philippe Pomier; PUGGIAN, Cleonice. A Educação Ambiental que se aprende na luta com os Movimentos Sociais: defendendo o Território e resistindo contra o Desenvolvimentismo Capitalista. Pesquisa em Educação Ambiental, v. 13, n. 1, p. 131-153, 2018.

MANTELLI, Gabriel Antonio Silveira; BICALHO, Isabela Soares; SIEMONS, Marie-Louise Sabino. Territórios em disputa: o “marco temporal” na encruzilhada da posse indígena e da crise climática. Povos e comunidades tradicionais na América Latina, p. 63.

OLIVEIRA, Raquel; ZHOURI, Andréa; DUMPTY, Humpty. Paisagens industriais e desterritorialização de populações locais: conflitos socioambientais em projetos hidrelétricos. Rio de Janeiro: I Encontro Ciências Sociais e Barragens. IPPUR/UFRJ e Fórum de Ciência e Cultura, 2005.

SCHVARSBERG, Gabriel et al. Mobilidades Pós-Antropocênicas: o potencial político de especulações projetuais em paisagens carrocêntricas. Revista de Morfologia Urbana, v. 12, n. 2, 2024.

SILVA, Silvia Heleny Gomes da. O direito à paisagem urbana: imagem e afetividade na construção de uma geografia do olhar. 2019.

SVAMPA, Maristella. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina: conflitos socioambientais, giro ecoterritorial e novas dependências. Editora Elefante, 2020.

VARJÃO, João Victtor Gomes; MONTEIRO, Anne Alencar; DA SILVA SANTANA, Maiara Damasceno. Territorializando corpos, gêneros e sexualidades. Cadernos de Campo (São Paulo-1991), v. 33, n. 2, p. e230377-e230377, 2024.

VERDUM, Roberto; DOS SANTOS VIEIRA, Lucimar de Fátima; PIMENTEL, Mauricio. As múltiplas abordagens para o estudo da paisagem. Espaço Aberto, v. 6, n. 1, p. 131-150, 2016.

VIEIRA, Lucimar de Fátima dos Santos; VERDUM, Roberto. A estética da paisagem cênica, pitoresca, sublime. Geografias e (in) visibilidades: paisagens, corpos, memórias. p. 130-158, 2017.

ZHOURI, Andréa; LASCHEFSKI, Klemens; PEREIRA, Doralice Barros. A insustentável leveza da política ambiental: desenvolvimento e conflitos sócio-ambientais. Autêntica Editora, 2024.

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

SOUZA, Marcio Henrique Francisco de (ORCID 0000-0001-5876-4378) . Paisagem, território e poder em tempos de crise: uma análise crítica das disputas socioambientais e a luta por justiça. Disponível em: https://revistadifatto.com.br/artigos/paisagem-territorio-e-poder-em-tempos-de-crise-uma-analise-critica-das-disputas-socioambientais-e-a-luta-por-justica/. Acesso em: 18/03/2026.